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sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Evangelho de Marcos


INTRODUÇÃO AO EVANGELHO DE MARCOS

O segredo messiânico: Quem és Jesus?


Mc 18, 6 no Codex Vaticanus com a frase "segundo Marcos".

Introdução

O Evangelho de Marcos pode ser dividido em cinco partes. Marcos organiza sua narrativa em torno do espaço geográfico: Jesus atua na Galileia e fora dela e finaliza sua missão em Jerusalém.Marcos é tido como o evangelho mais antigo. Segundo a tradição que vem de Papias de Hierápolis, Marcos foi ouvinte de Pedro. Como Marcos não teve pessoalmente com Jesus, ele fez anotações a partir da pregação de Pedro e de suas lembranças.[1]Mas temos uma tradição que identifica Marcos com o jovem que aparece em Mc 14, 51-52. O evangelho foi escrito em Roma, no ano 70.

A infância de Jesus: Ausente em Marcos e relatada em Mateus e em Lucas

O Evangelho de Marcos tem como prioridade contar o ministério de Jesus e seu desfecho. A infância de Jesus foi omitida. Mateus narra o nascimento de Jesus e sua genealogia (Mt 1-2). Ele procura filiar a existência de Jesus a Adão.  A partir do capítulo 3, ele segue a narrativa de Marcos. Lucas também utiliza os capítulos 1-2 também para introduzir a narrativa do ministério de Jesus, o nascimento de Jesus e de João. Este evangelista mostra a origem humana e divina de Jesus. Lucas acrescenta informações sobre o crescimento do menino Jesus e um fato sobre sua idade de 12 anos, quando ele discute com os doutores da Lei.  Jesus foi criado em Nazaré e iniciou seu ministério aos 30 anos (Lc 3, 23).
 A infância de Jesus não é tratada pelos evangelhos canônicos. Depois do nascimento, passamos de um episódio dos 12 anos para o início do ministério aos 30 anos. O que Jesus fez durante este tempo? Não figurou entre as preocupações dos autores canônicos. Mais tarde, aparece o Evangelho da Infância de Tomé, redigido por volta do ano 80[2], que procurou narrar histórias de milagres que Jesus realizou durante a infância.

I. A preparação do ministério de Jesus (1-1,13):

O texto é aberto com um prólogo que introduz o tema: “Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” (1,1). Marcos inicia sua narrativa contando sobre o batismo de arrependimento de João. Em seguida, Jesus vem de Nazaré (1,9) e foi batizado no rio Jordão. Depois faz um jejum de quarenta dias no deserto (1,12).
Início do ministério de Jesusna Galileia. O lugar de partida de Jesus é a Galileia. Depois da prisão de João, ele inicia sua pregação: “Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no Evangelho” (1,15). No Mar da Galileia, ele convida os pescadores Simão, André, Tiago e João (1, 19).
vv. 21-17 - Pregação na sinagoga de Cafarnaum. Jesus cura um homem possuído por um espírito impuro e o espírito revela seu nome: “Santo de Deus”. v. 28 - Jesus se torna conhecido. Vv. 28-31 - Jesus cura a sogra de Simão. v.35 – Jesus saindo pegando pelas sinagogas galileias.
v. 40 – Ele cura um leproso. V. 2,1 – cura um paralítico em Cafarnaum. Nesta situação, “ele estava em casa”. V. 10 – Jesus é identificado como o Filho do Homem. V. 13 – convidou Levi, o coletor. V. 15 – fez refeição com Levi e outros pecadores. Ele justifica que “veio para os pecadores”.
Os discípulos de João. V. 18 - João tinha discípulos e jejuavam. Debate sobre o jejum. Os discípulos de Jesus não jejuavam (18-22). V. 18 - Jesus colhe trigos em dias de sábado. 3,1 – Jesus cura um homem com a mão atrofiada. 3,6 – Os herodianos[3] e fariseus conspiram.
Audiência de Jesus.  3,7 – A audiência de Jesus envolvia todas as cidades da Galileia, Judeia, Tiro, Sidônia,Idumeia e Transjordânia.
Formação dos discípulos. V. 13 – Jesus formou um grupo com 12: Simão, Tiago (de Zebedeu), João (de Zebedeu), André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago (de Alfeu), Tadeu, Simão (zelota) e Judas Iscariot.
O comportamento de Jesus. V. 22 – Os escribas o viam possuído por Belzebu e os familiares diziam que estava louco (v. 31). Mc 3, 28 – blasfêmia conta o Espírito Santo.
Metodologia da pregação de Jesus. Ele utilizava parábolas. As figuras utilizadas nestas parábolas refletem a vida no campo:Parábola do semeador (4,1), parábola da semente (v. 26),parábola do grão de mostarda (4, 30), razão das parábolas (v33) – a) Ele ensinava de modo figurativo para o público externo; b) Ensinava para os discípulos com explicações.
4, 41 – Jesus caminha sobre as águas e o episódio gera a indagação: “Quem é este a quem até o vento e o mar obedecem?”
5 – Jesus vai para o outro lado do mar, para a região do gerasenos. Ele expulsa um espírito impuro (v, 2). Era uma região de costumes não-judaicos porque criava porcos (v. 13).
V. 23 – Jesus ressuscita a filha de Jairo; cura a mulher hemorroíssa. Aparece uma aramaísmo: Talitha kum (v. 41).
6.  Jesus volta a Nazaré. 6, 1- Jesus ensina na sinagoga. Episódio dos filhos de Maria. Jesus envia os doze a pregarem também. Algumas recomendações procedimentais: vestir simples, pregar ao arrependimento, expulsar os demônios, curar os doentes com óleo (vv. 12-13).
6,14 – Há uma discussão sobre quem era Jesus. Herodes toma conhecimento sobre Jesus.  Alguns diziam que Jesus era João Batista ressuscitado, Elias ou algum dos profetas.
O evangelho abre o texto falando sobre o ministério de João e no 6, 17 fala de sua execução a mando de Herodes. Como os profetas do Antigo Testamento, ele denuncia a vida imoral de um governador e acaba sendo punido.
V. 30 – A primeira multiplicação dos pães. Jesus caminha sobre o mar (v. 45), curas em Genesaré (v. 53).

II. Ministério de Jesus na Galileia (1, 14-7,23):

A - A interpretação que Jesus tem da Lei. Os fariseus e os escribas acusam Jesus de não ensinar seus discípulos a lavarem as mãos antes das refeições. Jesus fala da hipocrisia no uso da lei: A oferta sagrada corban (v. 11), a lei do impuro (v. 14) e apresenta uma lista de vícios (v. 21).

III. Viagens de Jesus fora da Galileia (7, 24-10):

A - Jesus viaja pela região siro-fenícia.7, 24 – cura de uma menina com espírito imundo. Jesus passa de Tido pelo Mar da Galileia e vai até a Sidônia e a Decápole. v. 33 – cura de um mundo (aramaísmo, Effata).
8. Segunda multiplicação dos pães. 8, 11 – os fariseus pedem um sinal. V. 22 – cura um cego em Betsaida. V. 27 – Em Cesareia de Filipe. Pedro revela um nome de Jesus: “Cristo”. Ele pede segredo sobre o fato.
B - A crença escatológica. O Filho do Homem. Este título aparece dentro de alguns anúncios da paixão. V – 31 – Jesus diz que vai sofrer; 38 – a vinda do Filho do Homem. A relação entre os versículos 8, 38 e 9, 1 demonstra que Jesus acreditava que a “vinda” aconteceria ainda durante a vida daqueles que conviviam com ele.
Revelação de mais um nome na Transfiguração. Há o testemunho da Lei (Moisés) e dos Profetas (Elias): “Este é o meu Filho Amado” (9, 8).
V – 9, 14 – cura de um epiléptico. 9, 30 – segundo anúncio da paixão.
C - Jesus gera concorrentes. Alguns estavam curando em nome de Jesus. Ele não os vê como concorrentes, mas como colaboradores. Um toque para o ecumenismo?
vv. 47-48 – Geena é um fogo inextinguível.
Debate sobre o divórcio.10, 1-12 – Todo aquele que se divorcia de sua mulher, casando-se com outra, comete adultério (posição de Jesus).
Critérios para herdar a vida eterna. Observar os mandamentos e superar o apego às riquezas – “partilhar os bens com os pobres” (v. 17). O serviço aos outros é o múnus daquele que quer ter poder com Jesus (v. 41).
v. 46 – Cura de um cego em Jericó (aramaísmo, Rabbuni).

IV – Ministério de Jesus em Jerusalém (11-16):

No capítulo 11, 1-11 - Jesus vai para Jerusalém, entra no Templo e volta para Betânia.v. 12 – No dia seguinte, Jesus amaldiçoa a figueira.
A – Confronto no Templo. Jesus expulsa os vendedores do Templo. Ele critica a exploração comercial do Templo.vv. 20-26 – O valor da oração.vv. 27-33 – Jesus volta ao Templo. Os sacerdotes, os escribas e os anciãos questionam a autoridade de Jesus.12, 1-11 – Jesus usa a parábola dos vinhateiros homicidas para falar da rejeição que as autoridades judaicas teriam aos Messias.v. 12 – Já há um plano de prender Jesus.vv. 13-17 – Os fariseus e os herodianos testam a Jesus se deveriam pagar impostos aos imperador romano César (moeda do denário).
B – Discussão sobre a ressurreição dos mortos. Os saduceus não acreditam na ressurreição (12,8). Mas Jesus diz que todos ressuscitam e a condição dos ressuscitados será como anjos (12,25).
C – Os escribas testam o conhecimento de Jesus da Lei. Ele fala sobre os mandamentos (vv. 28-34).
D – O Messias não é filho de Davi. O messianismo de Marcos tem uma interpretação diferente dos escrivas. Ele utiliza o salmo 110,1 como sendo de Davi. Segue uma crítica aos escribas. Seus costumes são de superioridade: a) circulam de toda; b) gostam de ser cumprimentados nas praças públicas; c) ocupam os primeiros lugares nas sinagogas e nos banquetes; d) são hipócritas por serem injustos com as viúvas (vv. 38-40).
            A justificação da oferta da viúva (vv. 41-44). A viúva deu a melhor oferta porque não deu a sobra, mas tirou do essencial para o seu sustento.
E – Discurso escatológico. Jesus profetiza a ruína de Jerusalém (13, 1-4).O desdobramentos dos fatos: a) falsidade, guerras e fome (vv. 5-8); b) perseguição aos discípulos; c) eles serão perseguidos, mas o Espírito Santo os assistirá; d) haverá grande tribulação sobre Jerusalém (vv. 14-23).
            A vinda do Filho do Homem. A perícope 13, 24-27 é um pequeno apocalipse marcano. Jesus fala que o céu escurecerá e o Filho do Homem aparecerá entre as nuvens. Ele conta a parábola da figueira (vv. 28-32) e pede para que os discípulos sejam vigilantes (vv. 13-36).

V. A Paixão e a ressurreição de Jesus

Os capítulos 14 e 15 narram a prisão e a morte de Jesus. Os chefes dos sacerdotes e os escribas estavam armando uma situação para prender Jesus durante dois dias antes da Páscoa (14, 1-2). Os acontecimentos têm tons preparativos para a sua Paixão: a) Uma mulher de Betânia unge Jesus com perfume de nardo (vv. 3-8); b) Judas entrega Jesus (vv. 10-11); c) Jesus celebra a Páscoa com seus discípulos (vv. 12-16), d) Jesus prediz que um discípulo irá traí-lo e outro que irá negá-lo (vv. 17-31).
A – Prisão. Jesus vai orar no Getsêmani e lá é preso (vv. 32-40). Há também a aramaísmoAbba (14, 36). Os chefes do Templo prendem Jesus (vv. 43-51). No v. 45 aparece outro aramaísmo“Rabi”. Alguns dizem que o jovem que foge nu é Marcos (v. 51-52).
B – Interrogatório. O sinédrio interroga Jesus. Jesus confirma que era o Messias (vv. 53-65). Pedro nega Jesus (vv. 66-70). Pilatos interroga Jesus (15, 1-15). Jesus é coroado de espinhos (vv. 16-20).
C- Jesus é levado ao Gólgota. Os soldados obrigaram Simão de Cirenea ajuda Jesus a carregar a cruz (vv. 20-21). Ele foi crucificado entre dois ladrões (vv. 23-28). Alguns escarnecem de Jesus (vv. 29-32).
D – Morte de Jesus. Jesus morre na cruz e o centurião profere mais um título de Jesus: “filho de Deus” (vv. 33-39). As mulheres que acompanhavam Jesus desde a Galileia estavam na cena: Maria de Mágdala, Maria (mãe de Tiago, o Menor, e de Joset), e Salomé (vv. 40-41). Elas foram conferir o túmulo depois do sábado (v. 16,1).
E – Ressurreição. As mulheres vão ao túmulo e um jovem informa que Jesus ressuscitou (vv. 1-8). Maria de Mágdala foi a primeira testemunha da ressurreição (vv. 9-11). Jesus apareceu aos Onze e ordenou que pregassem o Evangelho, batizassem as pessoas e ele confirmaria o poder deles. Depois desta fala, ele foi arrebatado ao céu (vv. 14-19).



[1]KOESTER, 2005, p. 182.
[2]É a data mais cedo relacionada à origem do texto, mas muitos concordam que foi escrito na metade do século II. Ireneu de Lião é o primeiro a citá-lo, isso por volta de 185.
[3] A menção de um grupo partidário de Herodes ocorre em Mc 3, 6; 22, 16 e em Mt 12, 13.

Os Evangelhos Sinóticos


          Os evangelhos sinóticos são Mateus, Marcos e Lucas. Eles são estudados juntos por causa das semelhanças que compartilham. São três versões bem parecidas de uma mesma história.João diferencia-se bastante dos Sinóticos. Os primeiros cristãos produziram vários evangelhos, apenas quatro foram admitidos como textos inspirados.
            Para se respeitar os autores, a Igreja antiga manteve as três versões dos Sinóticos. Porém, houve propostas de mesclar as narrativas em uma mesma obra. No século II, o sírio Taciano fez uma composição harmonizada com os evangelhos conhecida como Diatéssaron.[1] As semelhanças entre esses evangelhos geraram algumas hipóteses. Segundo a hipótese das duas fontes, as semelhanças entre os evangelhos se explica porque já havia um evangelho antes deles que serviu de fonte para cada autor. Marcos é o evangelho mais antigo e Mateus e Lucas utilizaram Marcos como referência e consultaram uma obra chamada de Fonte Q. Porém, ainda há informações específicas de cada evangelho. A estas fontes foram dados os nomes de fonte M (Mateus) e fonte L (Lucas). As hipóteses ajudam a compreender o processo de redação dos evangelhos e a confiabilidade das informações. Antes da redação dos evangelhos, havia coleções de ditos e de parábolas de Jesus. O Evangelho de Tomé é uma prova disso.[2] Provavelmente, os autores utilizaram diferentes fontes que preservavam informações sobre Jesus. Podem acrescentar a elas, as narrativas da paixão que foram utilizadas também pelo Evangelho de Pedro.
            Mateus é um evangelho voltado para os judeus. Ele pretende amenizar a ruptura entre judaísmo e cristianismo. Pode ter sido escrito em Antioquia, por volta do ano 80.O tema mais forte neste evangelho é o Reino de Deus.
O evangelho tem a seguinte estrutura: I. Prólogo (caps. 1; 2), II. A Vinda do Reino (caps. 3—7), III. As Obras do Reino (caps. 8-10), IV. A Natureza do Reino (caps. 11—13), V. A Autoridade do Reino (caps. 14—18), VI. As Bênçãos e os Julgamentos do Reino (caps. 19—25) e VII. Paixão e Ressurreição (caps. 26—28).
            Marcos é tido como o evangelho mais antigo. Segundo a tradição que vem de Papias de Hierápolis, Marcos foi ouvinte de Pedro. Como Marcos não teve pessoalmente com Jesus, ele fez anotações a partir da pregação de Pedro e de suas lembranças.[3]Mas temos uma tradição que identifica Marcos com o jovem que aparece em Mc 14, 51-52. O evangelho foi escrito em Roma, no ano 70.
Marcos é o evangelho da ação. Ele enfatiza o poder de Jesus sobre várias situações e mantém o segredo sobre sua condição de Messias. O texto pode ser dividido em: I –Prólogo: Início do Ministério de Jesus (1, 1-13), II – Ministério público de Jesus na Galileia (1, 14-6, 44), III – Ministério às regiões gentias (6, 45-8, 32), IV – Retorno a Cafarnaum (9, 33-5), V – Viagem para a Judeia e Jerusalém (10), VI – Paixão (11-15) e VII – Aparições ressurretas em Jerusalém (16).
Lucas é um evangelho destinado às comunidades gentílicas. Segundo uma tradição do século II, o autor deste evangelho é Lucas, o médico de Colossenses 4, 14. Ele foi escrito por volta de 80.
A estrutura de Lucas pode ser apresentada deste modo: I. Prefácio (1.1-4), II. As histórias da Infância (1.5-2.52), III. O Ministério de João Batista (3.1-20), IV. Introdução ao Ministério de Jesus (3.21-4.13), V. Jesus na Galiléia (4.14-9.50), VI. A Viagem de Jesus da Galileia a Jerusalém (9.51-19.44), VII. Jesus em Jerusalém (19.45-21.38) e VIII. O Clímax (22.1—24.53).


[1]KOESTER, 2005, p. 34.
[2]KOESTER, 2005, p. 50-51.
[3]KOESTER, 2005, p. 182.

Novo Testamento


INTRODUÇÃO À LITERATURA DO NOVO TESTAMENTO

1.    Introdução

Nesta seção, pretendemos fornecer uma síntese geral do Novo Testamento. Trataremos o Novo Testamento com a seguinte divisão literária: 1. Evangelhos Sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), 2. Literatura joanina (Evangelho de João e as Cartas de João), 3. Literatura lucana (Lucas – Atos dos Apóstolos, 4. Literatura paulina (Cartas de Paulo), 5. Cartas Pastorais (1º e 2º Timóteo e Tito), 6. Cartas Universais (Tiago, João, Pedro e Judas) e 7. Literatura apocalíptica (Apocalipse de João).

2.    A província romana da Palestina

Desde 63 antes de Cristo, a Palestina tinha se convertido numa província romana. O Império Romano escolheu Herodes I (73-4 a. C.) como o rei vassalo para cuidar do seu interesse na região. Era uma região politicamente instável. Periodicamente, surgiam revoltas contra os impostos exigidos pelos romanos. Herodes I era um político impopular porque representava os interesses dos estrangeiros. Pesava sobre ele também a acusação de ter profanado o templo de Jerusalém, quando empreendeu uma reforma e fez alterações que fugia do que estava prescrito na Lei.
No tempo de Jesus quem governava a Galileia era Herodes Antipas (20 a. C-39 d. C.), filho de Herodes I com Maltace. Era um político cruel mandou matar João Batista instigado por Herodíades. Ele interroga Jesus durante o julgamento, mas não o condena. Cuza era um procurador de Herodes cuja mulher, Joana, foi discípula de Jesus.
Enquanto, Herodes Antipas governava a Galileia; Pilatos (12 a. C. – 38 d. C.) governava a Judeia. Apesar de não ter condenado Jesus, foi um governador também cruel. Ele se apoderou do tesouro do templo, mandou executar samaritanos revoltosos.
Depois da Revolta Judaica de 135, os romanos fundiram a Palestina com a Síria formando uma única província.

3.    Galileia: ambiente de educação de Jesus

A região da Galileia envolvia uma área onde se assentavam as antigas tribos de Zabulon e de Neftali. Jesus era natural de uma região da Palestina cujo povo era marginalizado pelos judeus. Em João 7, há uma discussão sobre a origem do messias e uma das opiniões correntes entre os estudiosos da Lei é a de que “da Galileia não surge profeta” (Jo 7, 52). No mesmo evangelho, há declaração discriminatória contra a cidade de Nazaré (Jo 1, 46).
A população galileia era resultante de uma miscigenação com outros povos. Então, os judeus os consideravam impuros. Além disso, os seus costumes religiosos dos eram diferentes.[1]Os judeus achavam os galileus ignorantes e com um sotaque estranho. No episódio da prisão de Jesus, algumas pessoas que se encontravam lá identificam que Pedro era um galileu pelo sotaque (Mt 26, 73). No tempo de Jesus, toda a Palestina falava aramaico, porém, o dialeto da Judeia era diferente daquele da Galileia.
O aramaico era a principal língua em uso na Palestina. Foi esta língua usada para na pregação de Jesus. Embora, provavelmente, ele conhecesse o hebraico (Lc4, 16-17). Porém, a partir do século I antes de Cristo, esta antiga língua caiu em desuso. As Escrituras Judaicas eram lidas na sinagoga em hebraico. O episódio narrado por Lucas dá entender que Jesus lia hebraico. Como o grego era a língua franca de todo o Mediterrâneo, é possível que Jesus falasse também grego.  Alguns gregos procuraram Jesus. Neste encontro, presume-se que Jesus usou a língua franca para se comunicar com eles (Jo 12, 20-21).[2]
A Baixa Galileia região onde ficava situada a cidade onde Jesus cresceu tinha uma forte influência helenista. Muitas inscrições em língua grega foram encontradas na área do mar da Galileia. Estradas passavam ligando a Galileia a Damasco. Essas rotas serviam para o comércio.[3] Portanto, Jesus cresceu numa região em contato com pessoas que falavam grego. São, precisamente, estes contatos que os antigos palestinensesstinham dentro do mundo romano que ajudaram na expansão do cristianismo.

4. O Novo Testamento como Escrituras

Durante os dois primeiros séculos do cristianismo, os cristãos reconheciam como Escrituras apenas a Bíblia Hebraica. O próprio Jesus quando cita as Escrituras, ele menciona apenas a Torá e os Profetas (Mt 7, 12).  A igreja primitiva lia a versão grega do Antigo Testamento, a Septuaginta. As palavras e as histórias de Jesus circulavam entre as comunidades, mas, ainda não havia a recepção destes textos como “bíblia” no mesmo sentido que era aplicado ao Antigo Testamento. Aliás, nem se chamavam a Bíblia Hebraica ainda de Antigo Testamento.[4]
A partir da terceira geração de cristãos, houve a necessidade de fixar os ensinamentos e as histórias de Jesus por escrito. O objetivo era preservar a memória que os apóstolos tinham de Mestre. Com a morte das últimas testemunhas oculares da pregação apostólica, a sobrevivência doutrinal do cristianismo dependeria de uma coleção de memórias e de ensinamentos. Se não houvesse nada escrito, cada um poderia ensinar como quisesse.[5]
As epístolas de Paulo foram o modelo que influenciou a pregação através da escrita. Elas foram os primeiros textos do Novo Testamento e começaram a ser escritas no ano 50 depois de Cristo.Os seguidores de Paulo imitaram sua iniciativa e produziram as epístolasdeuteropaulinas: 2ª 2 Tessalonicenses, Colossenses, Efésios, as Epístolas Pastorais (1 e 2 Timóteo e Tito), Laodicenses e 3ª Coríntios.[6] Mais tarde, temos como exemplo a 1ª Epístola de Clemente aos Coríntios que segue a mesma tendência. Além disso, as pessoas letras tinham confiança em textos ou procuravam se esclarecer sobre os ensinamentos da nova religião por escrito.[7]
A segunda fonte que contribuiu para a formação do Novo Testamento são os evangelhos. Inicialmente, os apóstolos ou seus seguidores escreveram pequenos textos sobre ditos e parábolas de Jesus. As coleções de ensinamentos de Jesus imitavam as coleções de máximas da literatura sapiencial judaica. O Evangelho de Tomé é exemplo disso.Mais tarde foram incorporadas as narrativas sobre milagres e paixão de Jesus. Koester aponta como influência o gênero aretologia.
Os atos dos apóstolos é um gênero textual narrativo que se assemelha a um romance helenístico, porém, os acontecimentos narrados se referem ao início da Igreja e às ações de Pedro e de Paulo. Outros atos também foram escritos. Seguindo a apocalíptica judaica, os cristãos escreveram diversos apocalipses como Apocalipse de Pedro e Pastor de Hermas. O Apocalipse de João é o mais antigo deles.[8] Portanto, temos no Novo Testamento 4 gêneros literários diferentes: os evangelhos, os atos, as epístolase o apocalipse. Dentre as Epístolas, outros gêneros também são sugeridos como a Epístola aos Hebreus que é um tratado teológico.
Estes textos serviam para uso litúrgico e catequético, mas somente foram entendidos como Escrituras mais tarde. Tanto é que a Epístola de Judas utiliza despreocupadamente alguns livros apócrifos como Henoc, Testemunho dos Doze Patriarcas e Assunção de Moisés.Somente no século II encontramos uma noção de canonização dos livros do Novo Testamento. Marcião foi o primeiro cristão a se preocupar com uma definição dos livros autorizados sobre a fé cristã. Ele rejeitou o Antigo Testamento inteiramente e adotou apenas o Evangelho de Lucas e as Epístolas de Paulo (sem incluir as Pastorais). A partir desta influência, Justino trata osevangelhos como as únicas Escrituras do Novo Testamento.[9]
Ao pensar na definição de um texto autorizado para o cristianismo, alguns pensaram em harmonizar os quatros evangelhos em um só, mas Ireneu de Lião propôs a acolhida dos quatro separados. A lista mais antiga dos textos sagrados do Novo Testamento foi o Cânone Muratoriano elaborado por volta do ano 200. Esta relação praticamente todos os livros atualmente aceitos pelas Igrejas, apenas acrescentava o Apocalipse de Pedro.[10]


[1]p. 45.
[2] WALLACE, Daniel B. Gramática Grega: Uma Sintaxe Exegética do Novo Testamento. São Paulo: Editora Batista Regular do Brasil, 2009, p. 24
[3]CHANCEY, Mark. A. The Mythof Gentile Galilee. Cambridge: Cambridge University Press, 2002, p. 14.
[4] KOESTER, 2005, p. 6-7.
[5] KOESTER, 2005, p. 3.
[6] A Carta aos Laodicenses e a 3ª Carta a Coríntios não entraram no cânone cristão.
[7] KOESTER, 2005, p. 3.
[8] KOESTER, 2005, p. 4-5.
[9]KOESTER, 2005, p. 10-11.
[10] KOESTER, 2005, p. 11.

domingo, 29 de setembro de 2019

SUICÍDIO E O JUÍZO DA ÉTICA CRISTÃ



Em que a teologia pode contribuir para o Setembro Amarelo?

Temos de focar na prevenção e não na condenação do suicida.
Quando começa a campanha do Setembro Amarelo, aparece nas redes sociais um assunto muito polêmico que sua compreensão errônea mais atrapalha do que ajuda. Há uma leitura fundamentalista da Bíblia que considera que suicidas perdem a salvação. As pessoas fundamentalistas acabam insistindo nesta interpretação e promovem um grande desserviço para a luta pela prevenção ao suicídio. Este é um exemplo de mau uso da Bíblia. O fundamentalista insiste que quem pensa o contrário está ignorando a Bíblia e que ninguém mais conhece a verdade. São argumentos mais comuns para sustentar a todo custo a condenação moral do suicida. Nesta argumentação, precisamos ter claro que não estamos defendendo o suicídio, estamos argumentando a favor do respeito à memória do suicida.
Primeiro – há personalidades bíblicas que desejaram a morte. Algumas personalidades bíblicas enfrentaram situações difíceis que as levaram a pedir a morte: a) O profeta Elias pediu a Iahweh para que lhe tirasse a vida (1 Rs 19, 4); b) Jó diz que preferia morrer estrangulado a passar pelo sofrimento (Jo 7, 15); c) Moisés lamenta com Iahweh as dificuldades em liderar os israelitas pelo deserto e pede a morte (Nm 11, 14).  São situações humanas. Em todos estes casos, Deus não condena a atitude dessas pessoas, ele, antes de tudo, as encoraja e lhes devolve a esperança.
Segundo – há casos de suicídios na Bíblia. Podemos analisar três casos de suicídio no Antigo Testamento. Em 2 Sm 17, Aquitofel se enforcou por causa de um plano malogrado. Há duas outras situações: Em 1 Sm 31, 1-6, Saul suicida diante da ameaça dos inimigos. Sansão suicida puxando as colunas da casa sobre ele e seus inimigos (Jz 16, 28-30). São suicídios em situação de guerra. Mas mesmo Sansão cometendo um suicídio, ele é incluído no rol dos heróis da fé em Hebreus 11. No Novo Testamento, temos o episódio notório do enforcamento de Judas (Mt 27, 5). Neste caso, a atitude de Judas é mais condenada por ter traído Jesus do que por ter se enforcado.
Terceiro – não há relação entre suicídio e condenação eterna, literalmente, na Bíblia. Não existe nenhuma condenação explícita dizendo “os suicidas não herdarão o reino dos céus”. Quanto aos homicidas, sim, existe claramente uma condenação. As argumentações de condenação do suicida parte de outras premissas. E não de casos e de citações diretas do texto bíblico. Aliás, a posição de Jesus é a de que todos os pecados podem ser perdoados, exceto o pecado contra o Espírito Santo (Mc 3, 28-30). Além disso, o próprio Jesus insiste para que não julguemos os outros (Mt 7,1).
Por último - a misericórdia precisa exceder o juízo. Quando você quer usar a Bíblia para condenar as pessoas, você encontrará muitas razões. De fato, há muitas atitudes que os autores bíblicos condenam e que nossa ética contemporânea também condena. Porém, do ponto de vista da moral de Jesus, temos de propor mais a ajudar do que a condenar: “Sede misericordioso como o vosso Pai é misericordioso” (Lc 7, 36). Portanto, considerando que as causas do suicídio têm relações patológicas. Não podemos condenar as pessoas por estarem doentes, antes de tudo, precisamos ajudá-las a ser tratar. Está aí este esclarecimento para que se evite o uso da Bíblia para fins indevidos!

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Direito e Justiça segundo os profetas


ÉTICA SOCIAL NO PROFETISMO

O profetismo no antigo Israel tinha várias funções. Dentre as frentes de atuação dos profetas, podemos destacar seus discursos éticos.
AMÓS. O profeta Amós critica duramente a situação de luxo dos nobres de Sião e da Samara (6, 1-3). Os vv. 4-6 contêm expressões que denotam a condição de riqueza e de conforto das classes nobres: “leitos de marfins”, “divãs”, sinal de que dormiam bem; “cordeiros e novilhos”, “música”, “óleo e vinho”, sinal de que comiam e se divertiam bem. Amós acusa esses nobres de não se preocuparem com a ruína. Então, diz que eles serão exilados como punição.
No v. 8 Yahweh diz que odeio o orgulho e os palácios daquele povo e, então, levantará uma nação para aniquilar Israel (v. 9-14). A riqueza é criticada pelo profeta (“as casas de marfim”, 3, 15). A razão é que os ricos se esqueceram de cuidar de Israel e ocupam seu tempo com o luxo.
Ele chega a dizer no capítulo 8, que eles querem “eliminar os pobres da terra” e vivem falsificando as balanças (vv. 4-5). Eles ainda querem comprar o fraco com dinheiro e o indigente com um par de sandálias (v. 6). Um versículo chave da ética social de Amós é 5, 24: “Que o direito corra como água e a justiça como um rio caudaloso”.
ISAÍAS.  Este profeta se opõe aos rituais religiosos hipócritas. Ele diz que p jejum que Yahweh quer é a prática da justiça. Em Isaías 58, há uma sequência de práticas necessárias para com o próximo: a) Romper os grilhões da iniquidade (v 6), b) repartir o pão, c) acolher os desabrigados, d) vestir os nus, e) cuidar dos seus (v. 7). Os ricos e dono do poder estavam explorando os seus trabalhadores (58, 3). Isaías também utiliza os princípios do direito e da justiça para fundamentar sua ética (58, 2).
MIQUÉIAS. O profeta reclama que o fiel e justo desapareceram da terra (7, 2). As pessoas deixaram de cumprir o bem. O príncipe e o juiz exigem gratificação para fazer o bem (7, 3). O tema da justiça também está presente no discurso deste profeta. Ele resume toda a motivação da prática do bem. Nada mais é exigido do que “praticar a justiça, amar a bondade e te sujeitares a caminhar com teu Deus!” (6, 8).


A antropologia do Cohélet


A CONDIÇÃO DO HOMEM NA LITERARURA SAPIENCIAL

COHÉLET. O autor do Cohélet desenvolve uma reflexão franca sobre a situação do homem neste mundo. A vida é transitória, tudo se repete, o homem se afadiga e não tira proveito da vida. Viver é uma tarefa ingrata. E o pior de tudo é que o destino do sábio e do tolo é o mesmo. A sabedoria foi um objetivo do autor, mas ele diz que isso também é vaidade (1, 3-17; 2, 14-15).
Como um filósofo epicurista, o Cohélet diz que a felicidade do homem é comer e beber (2, 24). A sua felicidade está em desfrutar do bem-estar e do produto do seu trabalho (3, 12). Mas há outras coisas que incomodam o pregador, como a existência do mal no mundo: “no lugar do direito encontra-se o delito, no lugar da justiça, lá se encontra o crime” (3, 16). Os oprimidos vivem sem esperança, de tal sorte que mais feliz é aquele que ainda não nasceu (4, 3).
A sorte do homem é idêntica a dos animais. Todos caminham para a morte.  Segundo o autor, não há garantias de continuidade e de recompensa: “Quem sabe se o alento do homem sobre para o alto e se o alento do animal desce para baixo, para a terra?” (3, 21). O Cohélet não tem uma expectativa formada sobre a vida futura. A única coisa que resta ao homem é alegrar-se com suas obras.
Uma grande vaidade que é a causa de muitos males é o acúmulo de riquezas. O trabalho penso em troca de uma riqueza insaciável é vaidade (4, 7). Mais vale é busca a companhia dos outros para melhor enfrentar a vida. Mesmo diante deste quadro de esforço mínimo pelas preocupações da vida, o Cohélet aconselha viver de modo prudente.
Ele aconselha no culto buscar mais ouvir do que os rituais. Daí procedem alguns deveres diante de Deus: Ser parcimonioso com as palavras, cumprir as promessas. (5, 1-6).
A ambição pela riqueza é algo insaciável. Quem ama o dinheiro nunca está satisfeito. O Cohélet considera esta preocupação como um grande mal do mundo. Ele critica aqueles que vivem para acumular riquezas. Eles fazem maus negócios. E acabam sem nada (5, 12-16). Outro grande sofrimento com a riqueza é ter muitas coisas e nele poder usufruir delas (6, 1-8).
Uma preocupação que percorre o livro é a de que proveito tira o homem do esforço da sua vida? O Cohélet está cobrando, no auge de sua franqueza, uma retribuição necessária da parte de Deus. Mas ele não tem esta crença. Na vida, ele já viu justos sofrerem e ímpios sobreviverem (7, 16). Assim como justos que são tratados como ímpios e, ímpios como justos (8, 14). Portanto, nem a bondade e nem a maldade garante o destino de um homem. Há um tempo para cada coisa, mas a infelicidade do homem é não saber quando algo vai acontecer (8, 7). Às vezes, nem mesmo a morte serve de lição para os que ficam (8, 10).
Aliás, a morte nivela a todos o bom e o mau (9, 1-4). No capítulo 9, o Cohélet revela o motivo de seu tratamento franco sobre a condição humana. Segundo sua concepção, não há retribuição para ninguém de acordo com suas obras. Os mortos não sabem nada e sua lembrança é esquecida. Eles não participarão de mais anda debaixo do sol (9, 5-6). No Xeol, não existe obra, nem conhecimento e nem sabedoria (9, 10). As obras não são garantidas pelo esforço, são dadas pela oportunidade (9, 11). Portanto, tudo é incerto e o esforço nesta vida é vaidade.