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quinta-feira, 23 de junho de 2011

Corpus Christi:

O MISTÉRIO DA EUCARISTIA E A SOLENIDADE
DE CORPUS CHRISTI


            A festa conhecida como Corpus Christi é nomeada liturgicamente como Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo. Neste ano, ocorre, hoje, no dia 23 de junho. A ocasião é celebrada na quinta-feira após a Solenidade da Santíssima Trindade. A liturgia enfatiza neste dia o mistério da Eucaristia. Jesus fez de seu corpo e de seu sangue verdadeiramente comida e bebida para todos os homens e todas as mulheres.
            Já ocorre na quinta-feira da Semana Santa uma exaltação da Eucaristia. Porém, mais tarde a tradição litúrgica incorporou uma festa específica para tornar pública a confissão de fé no mistério da Eucaristia. A procissão tem o sentido de uma manifestação dessa fé perante toda a comunidade.
            No século XIII, a catequese sobre a Eucaristia andava um pouco a desejar. Os fiéis foram criando muito misticismo em torno do rito da Missa. Aos poucos a Igreja foi introduzindo meios para tornar as partículas eucarísticas mais visíveis e próximas dos fiéis. A festa de Corpus Christi foi celebrada pela primeira vez em 1246 na diocese de Liège, na Bélgica. Em 1264, o papa Urbano IV estendeu a festa a toda a Igreja. Mas será o Concílio de Trento (1545-1563) que enfatizará e tornará obrigatória a exposição pública das partículas eucarísticas assim como a procissão que as exalta.
            Com o passar do tempo, foi introduzido o costume, presente em vários lugares, de enfeitar as ruas para a passagem do Santíssimo Sacramento. Além de expressão de fé, é uma demonstração da dimensão artística do povo.
            Porém, ao analisar a evolução da compreensão do sentido da Eucaristia é preciso entender que a festa de Corpus Christi só terá sentido pleno se cada fiel estiver voltado para o sentido da Eucaristia como comunhão, partilha. Não é recomendável que se estacione somente na demonstração pública de que a Eucaristia, enquanto sacramento, é a marca diferencial do catolicismo. A ênfase na transubstanciação pode levar ao esquecimento de muitos aspectos fundamentais da Eucaristia. A devoção deve abarcar toda a amplitude do mistério eucarístico.
            No terreno da ética, a celebração de Corpus Christi nos remete à redescoberta do corpo humano, já que vivemos em uma época da banalização do corpo através do prazer excessivo e da dor excessiva. Precisamos dar ênfase à sacralidade do corpo, templo e espaço de santidade e de construção de relações solidárias. A violência e a vivência desregrada da sexualidade agridem a sacralidade desse corpo, identidade e concretude do ser humano.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Leitura Recomendada


O MÉTODO DO MOBON É TEMA DE DISCUSSÃO ACADÊMICA

Doutorando analisa a práxis comunicativa do movimento em artigo

O método de evangelização do Mobon influenciou o jeito de ser Igreja de gerações de uma imensa porção do Estado de Minas, chegando até mesmo a exercer influência em outras regiões do país. O doutorando Fabrício Roberto Costa Oliveira analisa este fato em artigo intitulado “O Concílio Vaticano II, o Mobon e as comunidades rurais: Um estudo sobre a práxis comunicativa entre missionários e grupos católicos leigos”, publicando no periódico “Religião e Sociedade”, Rio de Janeiro, 30(2): páginas 38-58, de 2010. Veja resumo do artigo:

“O Mobon é um movimento católico, formado sob a influência do Concílio Vaticano II (1962-1965), que teve atuação destacada em comunidades rurais da Zona da Zona da Mata Mineira. O ideal de maior corresponsabilidade entre o clero e os leigos ocupou lugar de relevo no movimento, que promoveu cursos para a organização de comunidades e lideranças leigas, com o objetivo de que essas se tornassem menos dependentes da atuação dos párocos locais. Nos cursos eram utilizadas metáforas e representações simbólicas do mundo rural com propósitos de promover uma maior compreensão, visando a maior participação leiga. O texto tem como propósito apresentar uma análise desse processo de atuação comunitária da Igreja Católica e do papel relevante adquirido pela práxis comunicativa no processo relacional entre missionários e grupos católicos leigos.”

 Saiba também de outras referências bibliográficas sobre o assunto utilizadas pelo autor:

ARAÚJO, Ricardo Torri. (1996), O Movimento da Boa Nova. Belo Horizonte: O Lutador.
BOTELHO, Demerval Alves. (1996), História dos Missionários Sacramentinos (1945-1994). Belo Horizonte: O Lutador.
REZENDE, João. (1997), “A linguagem de uma formação popular”. In: D. Ângelo (org.). Caderno de formação política. Belo Horizonte: O Lutador.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Fórmulas Litúrgicas:

SÊDER DE PÊSSACH PARA CRISTÃOS
Celebração da Páscoa Judaica com Crianças e Jovens Cristãos

1. ABERTURA DO SÊDER

NARRADOR: Sejam bem-vindos à Ceia Pascal. Esta é a festa celebrada pelos judeus para relembrar a libertação dos seus antepassados do Egito. Todos os anos em todo o mundo os judeus celebram este fato histórico. Assim, também os cristãos têm a Páscoa como o evento mais importante de sua fé. E acrescentam ao significado da Páscoa original a lembrança da ressurreição de Jesus. Esta celebração é bastante educativa para nossas crianças e nossos jovens. Pois, a missa teve sua origem nesta Ceia. Portanto, os primeiros celebravam a “missa” como um grande jantar de Ação de Graças. É uma festa de alegria. Por isso, iniciemos cantando.

2. ACENDER DAS VELAS
NARRADOR: Nos lares israelitas, era tarefa da mãe acender as luzes dos candeeiros, dando vida e alegria ao ambiente da Festa. (Acendem-se as velas. Canta-se “Oh, luz do Senhor”).
MÃE: Bendito sejas Tu, Senhor nosso Deus, Soberano do Universo, que nos santificaste com teus mandamentos e nos mandaste acender as luzes desta festa da Páscoa. Para que a luminosidade destas velas possa nos inspirar e trazer-nos esperança de uma vida melhor para todos. Amém.

3. OS SÍMBOLOS DO SÊDER
NARRADOR: Hoje celebramos a Páscoa, a festa da liberdade e da redenção. Todos os símbolos deste ritual representam acontecimentos da vida do Povo de Israel. Lemos a Hagadá que é a história da libertação dos israelitas da escravidão no Egito e comemos a Ceia comemorativa. Para nós cristãos, acrescentamos a narrativa da Ressurreição de Jesus.
PARTICIPANTE: Qual é o significado do osso da perna do carneiro?
NARRADOR: O osso da perna do carneiro lembra o cordeiro oferecido na Páscoa no Templo de Jerusalém há dois mil anos. Lembra também que Deus passou por cima das casas do povo judeu no Egito.
PARTICIPANTE: Qual é o significado do ovo?
NARRADOR: Ele lembra o ovo assado oferecido no Templo de Jerusalém na festa da Páscoa.
PARTICIPANTE: Qual é o significado das ervas amargas?
NARRADOR: Lembram-nos a amargura e a opressão da escravidão.
PARTICIPANTE: Que significa esta mistura de maçã ralada?
NARRADOR: Lembra a argamassa usada pelos trabalhadores judeus escravos no Egito.
PARTICIPANTE: Qual o significado do pedaço de salsa?
NARRADOR: É símbolo de gratidão para com Deus pela boa qualidade da terra, por nosso pão e alimento.
PARTICIPANTE: Qual o significado da água salgada?
NARRADOR: É o símbolo da amargura que Israel suportou em sua experiência de cativeiro. Será usada para mergulharmos a salsa.
PARTICIPANTE: Qual o significado dos três pães sem fermento?
NARRADOR: Representa os três patriarcas, Abraão, Isaque e Jacó.
PARTICIPANTE: Quantas taças de suco de uva nós deveremos partilhar nesta festa?
NARRADOR: Elas são quatro e representam as quatro fases da libertação de Israel da escravidão. A cor do suco representa cor do sangue que os judeus pincelaram o batente de suas casas para os primogênitos pudessem sobreviver.
PARTICIPANTE: Qual é o significado daquela taça especial no meio da mesa?
NARRADOR: Ela lembra a vinda do Messias para a libertação final.

A NARRATIVA DA PÁSCOA JUDAICA

PRIMEIRA TAÇA
(Enche-se a primeira taça, e levanta-se a taça; após é recitada a bênção).
NARRADOR: Bendito és tu, Senhor nosso Deus, soberano do universo, criador do fruto da vida.
PARTICIPANTES: Adorado sejas, Senhor, pelo dom da vida que está em nossas mãos para ser compartilhado entre nossos irmãos.
LOÇÃO DAS MÃOS
(Uma jarra de água, uma bacia e uma toalha são trazidas para o dirigente do Sêder lavar as mãos).

PERGUNTAS
PARTICIPANTE: Por que este dia é diferente de todos os outros?
NARRADOR: Porque recordamos a libertação do povo judeu da escravidão no Egito.
PARTICIPANTE Então, o senhor pode nos contar como tudo aconteceu
NARRADOR: Deus, nós ouvimos com os nossos ouvidos, e nossos pais na fé nos têm contado a obra que fizeste em seus dias, nos tempos da antiguidade. Os egípcios os maltrataram e os afligiram, e sobre eles impuseram uma dura escravidão. Mas tu os salvaste dos seus inimigos, e confundiste os que os odiavam. Em tudo, Senhor, engrandeceste o teu povo: tu o honraste e não o desprezaste, assistindo-o em todo tempo e lugar! Assim nós, teu povo e ovelhas de teu pasto, te louvaremos eternamente; de geração em geração cantaremos os teus louvores.


SEGUNDA TAÇA
(Enche-se a segunda taça, e levanta-se a taça; após é recitada a bênção).
NARRADOR: Bendito és tu, Senhor nosso Deus, soberano do universo, criador do fruto da vida.
PARTICIPANTES: Adorado sejas, Senhor, pelo dom da vida que está em nossas mãos para ser compartilhado entre nossos irmãos.
COMER UMA VERDURA
(Todos mergulham a verdura na água salgada e o dirigente diz a bênção. Depois, come-se a salsa).
PARTICIPANTES Bendito sejas Tu, Eterno, nosso Deus, Rei do Universo, que nos santificaste com Teus mandamentos e nos ordenaste comer as ervas amargas.
NARRADOR: Vendo a situação do povo hebreu no Egito disse Deus: "De fato tenho visto a opressão sobre o meu povo no Egito, e também tenho escutado o seu clamor, por causa dos seus feitores, e sei quanto eles estão sofrendo.” Então enviou seu servo Moisés, e Aarão, a quem tinha escolhido, por meio dos quais realizou os seus sinais miraculosos e as suas maravilhas na terra do Egito.


TERCEIRA TAÇA
(Enche-se a terceira taça, e levanta-se a taça; após é recitada a bênção).
NARRADOR: Bendito és tu, Senhor nosso Deus, soberano do universo, criador do fruto da vida.
PARTICIPANTES: Adorado sejas, Senhor, pelo dom da vida que está em nossas mãos para ser compartilhado entre nossos irmãos.
COMER DO OVO
FRAÇÃO DO PÃO
(O dirigente descobre os três e os quebra. Escondendo a metade deles. Diz-se “Este é o pão da aflição!”).
NARRADOR: Ele transformou as águas deles em sangue, causando a morte dos seus peixes. A terra deles ficou infestada de rãs, até mesmo os aposentos reais. Ele ordenou, e piolhos e enxames de moscas invadiram o território deles. Com pestilência gravíssima, todo o gado dos egípcios morreu. E feridas purulentas começaram a estourar nos homens e nos animais. Deu-lhes granizo, em vez de chuva, e raios flamejantes por toda a terra deles; arrasou as suas videiras e figueiras e destruiu as árvores do seu território. Ordenou, e vieram enxames de gafanhotos, gafanhotos inumeráveis, e devoraram toda a vegetação daquela terra, e consumiram tudo o que a lavoura produziu. Ele enviou trevas, e houve trevas, e eles não se rebelaram contra as suas palavras. E Moisés e Aarão fizeram todas estas maravilhas diante de Faraó; mas o Senhor endureceu o coração de Faraó, que não deixou ir os filhos de Israel da sua terra. E por ultimo feriu seus primogênitos.


QUARTA TAÇA
(Enche-se a quarta taça, e levanta-se a taça; após é recitada a bênção).
NARRADOR: Bendito és tu, Senhor nosso Deus, soberano do universo, criador do fruto da vida.
PARTICIPANTES: Adorado sejas, Senhor, pelo dom da vida que está em nossas mãos para ser compartilhado entre nossos irmãos.
COMER DO PAO AZIMO
(Come-se o pão ázimo.)
PARTICIPANTES: Bendito sejas Tu, Eterno, nosso Deus, Rei do Universo, que fazes sair o pão da terra para saciar os teus filhoa. Amém.
NARRADOR: E falou Deus a Moisés e a Aarão na terra do Egito, dizendo: Este mesmo mês vos será o princípio dos meses; este vos será o primeiro dos meses do ano. Falai a toda a congregação de Israel, dizendo: Aos dez deste mês tome cada um para si um cordeiro, segundo as casas dos pais, um cordeiro para cada família. Mas se a família for pequena para um cordeiro, então tome um só com seu vizinho perto de sua casa, conforme o número das almas; cada um conforme ao seu comer, fareis a conta conforme ao cordeiro. O cordeiro, ou cabrito, será sem mácula, um macho de um ano, o qual tomareis das ovelhas ou das cabras. E o guardareis até ao décimo quarto dia deste mês, e todo o ajuntamento da congregação de Israel o sacrificará à tarde. E tomarão do sangue, e pô-lo-ão em ambas as ombreiras, e na verga da porta, nas casas em que o comerem. E naquela noite comerão a carne assada no fogo, com pães ázimos; com ervas amargosas a comerão. Não comereis dele cru, nem cozido em água, senão assado no fogo, a sua cabeça com os seus pés e com a sua fressura. E nada dele deixareis até amanhã; mas o que dele ficar até amanhã, queimareis no fogo. Assim pois o comereis: Os vossos lombos cingidos, os vossos sapatos nos pés, e o vosso cajado na mão; e o comereis apressadamente; este é o Pessach de Deus. E eu passarei pela terra do Egito esta noite, e ferirei todo o primogênito na terra do Egito, desde os homens até aos animais; e em todos os deuses do Egito farei juízos. Eu sou Deus. E aquele sangue vos será por sinal nas casas em que estiverdes; vendo eu sangue, passarei por cima de vós, e não haverá entre vós praga de mortandade, quando eu ferir a terra do Egito. E este dia vos será por memória, e celebrá-lo-eis por festa a Deus; nas vossas gerações o celebrareis por estatuto perpétuo. (Ex. 12, 1-14).

SANDUÍCHE
(Faz-se um sanduíche com pão, erva amarga e a pasta de maçã).

(Canta-se “Basta que me toques, Senhor”).

A NARRATIVA DA PÁSCOA CRISTÃ

NARRADOR: Jesus como um judeu devoto também celebrava a Ceia Pascal todos os anos. Durante a sua última ceia, ele recomendou que seus discípulos sempre a celebrassem em memória dele. Entre os cristãos, a ceia pascal recebeu um novo sentido. A Missa que é celebrada todos os domingos surgiu deste jantar de ação de graças que era realizado pelos judeus.
NARRADOR: Enquanto jantavam, Jesus tomou um pão, e pronunciando a bênção de ação de graças, o partiu e o deu aos seus discípulos dizendo:
PARTICIPANTES: “Tomai e comei; isto é o meu corpo”.
(Todos comem um pedaço de pão).
NARRADOR: Em seguida, tomou um cálice e, tendo agradecido a deus, o deu aos seus discípulos, dizendo:
PARTICIPANTES: “Bebei dele todos; porque isto é o meu sangue, o sangue, o sangue da nova aliança, derramado em favor de vós para remissão dos pecados”.
(Todos tomam um gole do suco de uva).
NARRADOR: Com esta ceia Jesus deu corpo e seu sangue como alimento aos homens e às mulheres através do pão e do vinho. Esta ceia passou a ser celebrada pelos os discípulos todos os domingos, mas tarde a ceia se desenvolveu até chegar à celebração que hoje chamamos de Missa. Esta é a ceia da nova aliança.
PARTICIPANTE: Por quer celebramos a Missa?
NARRADOR: Porque Jesus em sua última ceia disse aos seus discípulos: “Fazei isto em memória de mim”. Todas as vezes que comemos deste pão e bebemos deste cálice lembramos o sofrimento, a morte e a ressurreição de Jesus.

LOUVAÇÃO (HALLEL)
(Canta-se “O Senhor fez maravilhas” ou “Obrigado Senhor”).

REFEIÇÃO DA PÁSCOA
(Serve-se a refeição a todos os participantes).
NARRADOR: Neste momento, vamos completar nossa refeição lembrando que esta é uma festa de irmãos e de compromisso com a partilha e a solidariedade. Bom apetite a todos!

BÊNÇÃO FINAL
NARRADOR: Bendito seja o Senhor, que nos deu a força e a alegria desta celebração da Ceia Fraterna. Que esta fraternidade se estenda por todos os dias deste ano. Amém.

(Canta-se o “Hevenu Shalom Aleichem” e todos se cumprimentam).

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Módulo: Apologética


APOLOGÉTICA CATÓLICA
Introdução
          Apologética é a defesa bem fundamentada dos princípios da fé cristã. Desde os primeiros séculos do cristianismo, que as lideranças precisaram defender a fé e os costumes cristãos diante da sociedade do Império Romano. Hoje, devido às diferenças doutrinárias, cada Igreja tem sua apologética. Neste estudo, vamos tratar a respeito da Apologética Católica. É importante informar que a apologética não é uma defesa superficial, forçada e que deseja fazer valer uma doutrina a todo custo. A Bíblia é o fundamento principal de defesa ou refutação de qualquer doutrina cristã.

Conteúdo
            A Apologética é uma parte da teologia que cuida das doutrinas mais difíceis de compreensão e defesa. Muitas delas não estão de modo explícito na Bíblia. Elas encontram maior esclarecimento na Tradição. As principais doutrinas exclusivas da Apologética Católica são: Doutrina do purgatório, a intercessão e a veneração dos santos, o culto a Maria e os dogmas marianos, a transubstanciação e o sacrifício da Missa, a confissão auricular e as indulgências, o cânon da Bíblia, o primado romano e a infalibilidade papal, a Inquisição, celibato clerical, ecumenismo e a comunhão eclesial.  

Fontes da fé católica
As divergências de doutrina entre católicos e evangélicos são provenientes dos diferentes modelos de conceber a Igreja e a fonte da fé. A Igreja Católica tem como fontes de doutrinas: A Bíblia, a Tradição Apostólica e o Magistério. Ela aceita as Escrituras e a Tradição como regras de fé. Os evangélicos aceitam somente a Bíblia, além disso, eles seguem o cânon mais curto. Outro fato é: A interpretação bíblica na tradição protestante é individual, no catolicismo esta interpretação é feita coletivamente, pela Igreja.  É humano e natural que haja divergências. Pontos de partida diferentes vão levar a conclusões diferentes.

PARTE I – QUESTÕES FUNDAMENTAIS

1ª Questão: A intercessão e a veneração dos santos
            Nos séculos VIII e IX, houve um forte movimento na Igreja chamado Iconoclastia. No Império Bizantino, houve uma revolta contra o uso de imagens. Este movimento levou muita gente à tortura e à morte. A causa é a dúvida de se venerar imagens é idolatria ou não. Em muitas ocasiões, o zelo religioso causou muita confusão. Durante a Reforma Protestante, o problema voltou à tona.
            A veneração de imagens foi uma doutrina muito polêmica. O Concílio de Hieria (754 d. C.) a proibiu. Depois o II Concílio de Niceia a aprovou (787 d. C.).  Os costumes relacionados ao culto aos santos introduzidos na Igreja foram: A veneração de imagens e relíquias (século II), canonização, intercessão e festa dos fiéis defuntos.
Citações bíblicas: Ex 25, 18-20; Num 21, 8-9; Ex 20, 24.

2ª Questão: A doutrina do Purgatório
            A doutrina do Purgatório surgiu de uma compreensão de que ninguém poderia entrar no Céu sem estar totalmente puro de suas faltas.  O Catecismo da Igreja Católica mantém esta doutrina baseada na Tradição. Os teólogos protestantes comentam que ela não possui referência bíblica pelo fato de Macabeus não ser aceito pelo Cânon Hebraico. Existem muitas evidências de que os primeiros cristãos oravam pelos mortos. Há muitas inscrições em catacumbas. A palavra Purgatório não se encontra na Bíblia. As definições dogmáticas sobre a doutrina foram proclamadas pelos Concílio de Lião II (1274), o Concílio de Florença (1438-1445), e o Concílio de Trento (1545-63 ). Mas nem toda palavra usada pela Igreja se encontra na Bíblia, há apenas os conceitos.
Citações bíblicas: Mac 12, 42-46; Mt 12,32; Mt 5,25-26; 1Cor 3,15.

3ª Questão: O culto a Maria e os dogmas marianos
            Desde o início da Igreja, Maria foi sempre teve um lugar de destaque na memória dos cristãos.  No Concílio de Éfeso (431), houve a declaração de que Maria é a mãe de Deus. Os títulos de exaltação de Maria já aparecem nos textos bíblicos como “cheia de graça”, “bem-aventurada”, “mãe do Senhor”. Diante de Maria deve se evitar os dois desvios de doutrina: O minimalismo e o maximalismo. Não se pode elevá-la à condição divina (maximalismo) e nem desprezá-la a ponto de esquecer que ela é mãe de Jesus (minimalismo).
            Os principais dogmas marianos são: (1) Virgindade perpétua, (2) maternidade divina, (3) imaculada conceição e (4) assunção aos Céus.  A seguir, comentários sobre eles: O registro mais antigo sobre o dogma da virgindade perpétua foi defendido por Ambrósio de Milão (391), baseado em Isaías 7, 14 (1). O Concílio de Éfeso (431) declarou que Maria é mãe de Deus, se ela é verdadeiramente mãe de Jesus, que é Deus Filho, logo se pode atribuir a ela a maternidade de Deus (2).  O dogma da imaculada concepção de Maria foi oficializado em 1854 pelo papa Pio IX. O sentido desse dogma é que Maria foi concebida sem o pecado original por ser a futura mãe de Jesus (3). Desde o século IV, circulava entre os cristãos a tradição de que Maria teria sido levada ao Céu sem experimentar a morte. Seria um privilégio pelo fato de ela ser mãe do Filho de Deus. Os textos que falam sobre esses detalhes da vida de Maria são Livro do Repouso de Maria, Sobre a Morte da Santíssima Virgem e Sobre a Passagem da Virgem. Foram escritos entre os séculos V e VI. A morte de Maria é chamada na Liturgia de dormição.  O dogma foi proclamado pelo papa Pio XII em 1950 (4).
Citações bíblicas: Lc 1, 28; Lc 1, 34; Lc 1, 42-45.

4ª Questão: A transubstanciação e o sacrifício da Missa
            A Celebração Eucarística no domingo é um costume dos primórdios da Igreja (At 20,7).  O modo de celebrar a Eucaristia foi se modificando com o tempo. Inicialmente era um jantar realizado nas casas, com leituras bíblicas, ação de graças para cumprir o mandato de Jesus que dizia para realizá-lo em memória dele. Mais tarde a Missa passou a ser considerada sacrifício, a hóstia passou a ser adorada. Em cada época vai se estabelecendo uma compreensão.  Os católicos compreendem o pão e o vinho como verdadeiro corpo e sangue de Jesus, os evangélicos acreditam que eles são apenas recordação, símbolo.  E na comunhão, se recebe o pão e o vinho. Quando não se faz nas missas diárias é por razões práticas. Não existe proibição disso.
Citações bíblicas: At 20,7.

5ª Questão: A confissão auricular e as indulgências
                      A confissão e a penitência estiveram sempre presentes na vida da Igreja. A Bíblia fala a respeito da confissão dos pecados, porém foi a tradição que deu forma ao sacramento da Penitência. Os primeiros séculos na Igreja a penitência era uma prática muito presente. A confissão pública foi substituída aos poucos pela auricular. O Concílio de Latrão IV tornou obrigatória essa prática (1215). A confissão, a penitência e a absolvição têm raízes bíblicas e fizeram parte da Tradição dos Apóstolos. Porém, houve um período da História da Igreja que essas práticas passaram a ser excessivas.
                      As indulgências tiveram seu início no século III.  A indulgência é a reparação dos danos causados pelo pecado já confessado. A partir do século VI a reparação dos pecados passou a ser mais curta. O papa Bonifácio VIII (1300) decretou a primeira indulgência obtida por meio de um jubileu. A partir do século XIII, começou o abuso das indulgências vindo, posteriormente, a ser uma das causas da Reforma.
Citações bíblicas: Jo 20, 21-23; 1 Jo 1, 8-10;  Mc 2, 7.

6ª Questão: A Tradição e o cânon da Bíblia
            A formação do cânon demorou muitos anos. Alguns critérios foram observados para se considerar um livro como inspirado: a) antiguidade, b) catolicidade, c) apostolicidade e d) ortodoxia. A distinção entre as Bíblias Católica e Protestante se deve à opção por cânones diferentes. Os católicos adotaram o cânon alexandrino (mais sete livros) e os protestantes o cânon hebraico. Os protestantes aceitam a Bíblia como única regra de fé. A Igreja Católica entende que a Bíblia é a tradição escrita, canonizada, mas que muitos princípios da fé e dos costumes dependem da Tradição Apostólica. Ou seja, daquilo que os apóstolos ensinaram e a realizaram e que não foi escrito. As Igrejas evangélicas anularam a tradição da Igreja primitiva e só se ativeram à tradição bíblica. Mas na prática suas Igrejas também têm suas tradições, ou seja, práticas não registradas na Bíblia. O Decreto Gelasiano (século IV) optou pelo cânon alexandrino. O Concílio de Cartago (415) também adota a mesma lista de livros.
Citações bíblicas: Tt 1,5; I Ts 2,13; II Ts 2, 15.

7ª Questão: O primado romano e a infalibilidade papal
            A função do papa em relação à Igreja em muito polêmica. Durante muitos séculos a figura do papa foi confundida com uma autoridade política. Porém, o papa é simplesmente um bispo. Ele é chamado de “primeiro entre os iguais”. Ele apenas preside os outros bispos, é ponto de unidade. Os Evangelhos dão um destaque especial para Pedro dentro do grupo dos apóstolos, como este foi bispo de Roma, esta capital que era a cidade mais importante da época se tornou sede do bispo principal da Igreja.
Citações bíblicas: Mt 16, 18; Lc 22, 31-32; Jo 21, 15-17.

8ª Questão: Celibato clerical
            O celibato dos ministros ordenados tem sua fundamentação em algumas passagens bíblicas. Porém, na Igreja primitiva havia presbíteros casados e presbíteros solteiros. Somente mais tarde que o costume se tornou geral. A documentação oficial desse costume se deu em duas ocasiões, no Concílio de Elvira (300) e no Concílio de Latrão I (1123). Os cânones 27 e 33 de Elvira proíbem o casamento aos clérigos. O clérigo não pode ter consigo nenhuma outra mulher que não seja sua irmã ou filha. Todos os clérigos não podem casar-se e nem ter filhos. O cânon (DENZINGER[1], 304).
Citações bíblicas: Mt 19,12; 1Cor 7,7; 1Cor 7,32-34.


[1] DENZINGER é o nome pelo qual é conhecimento o manual que contém todas as decisões dos concílios, decretos, orientações dos pais da Igreja e que reúne todos os documentos de doutrinas desde o século II.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Teologia no Brasil:


CONSIDERAÇÕES ELEMENTARES SOBRE A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO

Segundo a WIKIPÉDIA (2010), a teologia da libertação é uma corrente teológica que engloba diversas teologias cristãs desenvolvidas no Terceiro Mundo ou nas periferias pobres do Primeiro Mundo a partir dos anos 70 do século XX, baseadas na opção [preferencial] pelos pobres contra a pobreza e pela sua libertação. Desenvolveu-se inicialmente na América Latina. Estas teologias utilizam como ponto de partida de sua reflexão a situação de pobreza e exclusão social à luz da fé cristã. Esta situação é interpretada como produto de estruturas econômicas e sociais injustas, influenciada pela visão das ciências sociais, sobretudo a teoria da dependência na América Latina, que possui inspiração marxista.

Vídeo recomendado sobre o tema:

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Teodiceia:

A EXISTÊNCIA DE DEUS E
O PROBLEMA DO MAL NA TRADIÇÃO BÍBLICA E CRISTÃ

1.    Introdução à temática
            A relação entre a existência de um Deus bom e a presença do mal do mundo constitui um dos maiores problemas teológicos. Esta questão foi levantada pelo filósofo Epicuro (341-270 a. C.), há quase 2.400 anos. O famoso dilema de Epicuro nos coloca contra a parede: “Deus quer impedir o mal e não consegue? Então, ele é impotente. Ele é capaz, mas não quer? Então, ele é malévolo. Ele é capaz e quer? Donde, então, o mal?” (EHRMAN, 2008). Muitas vezes a causa do ateísmo no mundo contemporâneo se deve à dificuldade de lidar com esta situação. No Brasil, muitas denominações cristãs lidam de modo muito confuso com essa dupla “bondade de Deus” e “existência do mal”. As afirmações que refletem este dilema são ouvidas quase todos os dias. E muitas vezes, só há duas saídas: O Deus é culpado pelo mal ou ele não existe. Muitas explicações impensadas levam as pessoas a justificar a falta de justiça social.
            Agostinho (354-430 d. C.) foi o primeiro pensador cristão a responder a essa questão. Através de seu livro “O Livre-arbítrio”, ele defende que o mal é resultado da liberdade humana e não da vontade de Deus. O problema se tornou uma questão tão preocupante que o filósofo Leibniz separou uma parte da teologia só para discutir este assunto. A este estudo ele deu o nome de Teodiceia, que quer dizer “justificação de Deus”. Então, desenvolve uma longa discussão sobre o tema no seu livro “Ensaios sobre a Teodiceia”.
            Atualmente, existem diferentes posições sobre o problema: a) O teólogo Andrés Torres Queiruga pensa que Deus é perfeito e não quer o mal, mas o homem é imperfeito e erra; b) O teólogo brasileiro Leonardo Boff afirma que não podemos insistir nesta discussão, precisamos é agir para que o mal seja amenizado; c) O teólogo estadunidense Bart Ehrman diz que o problema é importante, mas nós não temos respostas para ele.
            Porém, antes de tratar da relação de Deus com a história, trataremos da identidade de Deus dentro da Bíblia e da tradição cristã. Primeiramente, é preciso saber em que Deus acreditam os cristãos para depois investigar qual é a consequente relação dele com o mundo. Partindo da identidade e qualidades de Deus, procuraremos as respostas que a Bíblia dá e as que tradição cristã criou ao longo do tempo.

2.    A identidade e os atributos de Deus na tradição bíblica
     A tradição do Primeiro Testamento revela a identidade de Deus. Ele se apresenta como Yahweh, que quer dizer “Eu sou aquele que é”, o existente (Ex 3, 13). Deus é também criador (Gn 1,1) e legislador (Ex 20). Outros atributos de Deus são a glória, a santidade e a justiça (Lv 10, 3; Ex 22, 22). Porém, o que mais se destaca na sua relação com o povo de Israel são a bondade, a santidade e a justiça. A bondade é expressa em relação aos homens e às mulheres (Sl 145, 8-9). No Segundo Testamento, Deus é apresentado como o único plenamente bom (Mc 10, 18). Dentro da mentalidade de Jesus não há condições morais por parte do ser humano para que sua bondade se manifeste (Mt 5, 45). A expressão máxima dessa bondade é o amor. Tal afeição levou o ser humano à categoria de filho de Deus (1 Jo, 3, 1-2). A graça e a misericórdia completam a manifestação desse amor.
     A santidade implica a distinção de Deus do ser humano (Os 11, 9). É a sua natureza de inacessível, absoluto. A justiça refere-se à atitude de Deus diante dos merecimentos do homem (Esd 9, 15). Segundo a tradição bíblica, a justiça de Deus tem um caráter distributivo: Recompensa os bons e pune os maus (Rm 2, 3). A relação entre esses três atributos é conflituosa no texto bíblico, alguns autores optam pela excelência da misericórdia e outros pela justiça.
     Para os hebreus antigos, Yahweh tem aspecto humano. A essa visão de Deus, chamamos de antropomorfismo. Ele participa da história de Israel, liberta o povo da escravidão e estabelece uma aliança com os israelitas, em seguida, dá-lhes a Lei. O princípio dessa Lei é proteger os oprimidos, abençoar os justos e punir e amaldiçoar os pecadores. O grande desafio é que as leis divinas ordenam procedimentos considerados modernamente como antiéticos: O genocídio (Gn 19, 29), o infanticídio (Ex 11, 4), a intolerância religiosa e sexual (Ex 22, 17-18), e a pena de morte (Ex 21, 12). Esses procedimentos são provenientes da visão antropomórfica do divino dos autores.
     No Segundo Testamento, superam-se muitos aspectos ambíguos da Lei. Porém, o julgamento final é expresso em forma de justiça distributiva (Mt 25, 31-46). As restrições da Lei são substituídas pela moral cristã que transparece nas cartas. No Primeiro Testamento a imagem que sobressai de Deus é Senhor (Adonai), e no Segundo Testamento, a imagem apresentada por Jesus é Pai (Abbá).

3.    A identidade e existência de Deus na tradição cristã
     A partir da perspectiva bíblica, os teólogos desenvolveram dois caminhos para falar de Deus: A teologia afirmativa e a teologia negativa. A primeira procura descrever Deus, dando-lhe qualidades, afirmando o que ele é. Destaca-se o pensamento de Tomás de Aquino (1225-1274). A segunda, prefere dizer o que Deus não é, sem afirmar suas qualidades, alegando que o conhecimento humano é insuficiente para isso. Destaca-se Pseudo-Dionísio, o Areopagita (Séc. V).
     Dionísio apenas diz o que Deus não é. Mas Tomás de Aquino tentou usar a razão para demonstrar a existência e as qualidades de Deus. Ele formulou as famosas 5 vias para prová-la: 1ª Tudo que move é movido por outra coisa, mas aquilo que dá o ponto de partida a todos os motores é imóvel; 2ª Todo efeito depende de uma casa, a primeira delas não é causa por nenhuma outra; 3ª Todos os seres são passageiros, mas para que o mundo se sustente o primeiro deles é absoluto; 4ª Há graus de perfeição nos seres, mas há um contém todos os graus; 5ª O Universo é organizado, isso exige uma inteligência ordenadora.
     Durante a história da Igreja, muitas qualidades e descrições de Deus foram feitas. Porém, muitas dificultam e até ofuscam a identidade do divino. O cristianismo foi predominantemente marcado pela teologia afirmativa. Decorre daí a dificuldade dos cristãos de hoje relacionarem a existência de um Deus bom com a existência do mal.

4.    O problema do mal na história
     Os filósofos Leibniz e Voltaire travam uma disputa indireta sobre o assunto. Leibniz é realista/otimista e Voltaire é realista/pessimista. Para Leibniz, Deus sendo perfeito escolheu o melhor modelo de mundo possível. Neste modelo, existe um grande número de variedade e a máxima ordem. A pergunta que se segue é que “Se este é o melhor dos mundos donde vem o mal?” O pensador explica os tipos diferentes de mal: a) O mal metafísico – que é culpa da imperfeição do ser humano; b) O mal moral – é causado pelo pecado; c) O mal físico – é causado pela natureza, como punição ou para mudar o curso dos acontecimentos. Deus não culpado pelo mal, se existe algum é culpado do homem ou é um meio drástico para atingir um bem maior ou um mal maior.
     Voltaire critica o otimismo de Leibniz. Em seu livro “Cândido ou o otimismo”, ele apresenta a história de Cândido, uma pessoa boa, que sofre todas as desgraças possíveis, mas tenta acredita que mestre Pangloss está certo, pois ele ensinava que tudo concorre para o bem. A conclusão de Voltaire é que este não é o pior e nem o melhor mundo.
     Agostinho de Hipona (354-430) procura resolver o problema do mal dizendo que o mal é uma “falta”, uma “ausência” do bem. Deus é completo, por isso Ele é o sumo bem. A origem do mal está no livre-arbítrio. O homem no uso de sua liberdade, dominado pela má vontade, pratica o mal. A liberdade, o conhecimento e a vontade são as faculdades humanas nas escolhas morais. Quando o homem deixa de escolher a vontade divina, escolhendo a sua, comete o mal. Deus é o autor da liberdade e não do mal, este é humano.

5.    Considerações gerais sobre a problemática
     A identidade e os atributos de Deus nos textos bíblicos representam visões antropomórficas e culturais do divino. Portanto, existem várias posições, de várias épocas, lugares e autores. Se aquele que interpreta não souber ponderar tais textos entrará em conflito nas suas conclusões. A teologia negativa parece bastante prudente pelo fato de não fazer afirmações absolutizantes sobre Deus. Atualmente, muitos atributos divinos são extremamente carregados de ideologias negativas como “rei”, por exemplo.
     Para Andrés Torres Queiruga, o mal é inevitável para a condição limitada do ser humano. Mas Deus está no mundo na luta contra o mal juntos dos homens e mulheres. O problema deve refletido sem envolver a premissa Deus. Nesse sentido, Bart Ehrman confessa nossa incapacidade de resolver esse problema envolvendo os termos Deus e mal. A perspectiva de Leonardo Boff talvez seria a mais apropriada para realidade latino-americana, sabemos que Deus é bom, apesar de nossas tradições escritas serem diversificadas, então, cabe-nos resolver o problema do sofrimento do mundo, sem ficar transferindo nossa responsabilidade para Deus.

BIBLIOGRAFIA
AGOSTINHO, Santo. O livre-arbítrio. Tradução de Nair de Assis de Oliveira. São Paulo: Paulus, 1995.
EHRMAN, Bart. O problema com Deus. Tradução de Alexandre Martins. Rio de Janeiro: Agir, 2008.
LEIBNIZ, Gottfried Wilhelm. Os pensadores. Tradução de Marilena Chauí. São Paulo: Abril, 1974.
REALE, Giovanni. História da filosofia. Vol. 1.
VOLTAIRE, François Marie Arouet. Cândido ou o otimismo. Rio de Janeiro: 1994.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Reflexões Extra

LEVANTA-TE E VAI, TUA FÉ TE SALVOU[1]

Reflexão sobre ação moral e salvação pela fé no Novo Testamento

José Aristides da Silva Gamito

1.    Os imperativos do Evangelho
            Ao longo dos Evangelhos, percebemos a ocorrência de vários encontros entre Jesus e pessoas de fé. Uma característica notável desses encontros são os imperativos que Jesus vai proferindo. A reincidência desses comandos demonstra que a mensagem evangélica é dinâmica e ativa. Verifiquemos alguns desses. Na abertura do Evangelho de Marcos aparece um apelo forte “Arrependei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1, 15). Em seguida, começam a surgir os convites para seguimento como “Vinde em meu seguimento” (Mc 1, 17), “segue-me” (Mc 2, 14). A reflexão presente pretende enfocar os imperativos que ordena as personagens ao movimento.
            Jesus profere uma mensagem marcada pela prontidão, pela ação imediata. Após cada encontro, cada cura, a pessoa beneficiada é convidada a agir segundo a nova realidade experimentada no contato com o mestre. Em Marcos, vê-se a presença dos verbos “levantar” e “ir”. “Levanta-te, toma o teu leito e anda?” (2, 9), “Levanta-te e vem aqui para o meio” (3,3), “Menina, eu te digo, levanta-te” (5 41). E ainda, “Vai, tua fé te salvou” (10, 50) e “Vai para casa, para os teus” (5, 19).
            As narrativas de cura atualmente impressionam muito as pessoas por causa da esfera sobrenatural e a possibilidade de superação fácil do sofrimento. Porem, as curas de Jesus sofrem desdobramentos, resultam em um compromisso. Elas ocorrem com pessoas socialmente marginalizadas como portadores de hanseníase, deficientes físicos, visuais e auditivos. Através dos comandos, Jesus inclui as mesmas na vida social. São fatos perceptíveis nas expressões “levanta-te”, quer dizer tomar uma posição a altura dos demais, “vem para o meio”, traz a ideia de inclusão no espaço que pertence a todos. A sogra de Pedro é curada e põem-se a servir os visitantes (Mc 1, 31). A cura física e a inclusão se completam na expressão “tua fé te salvou”.

2.    A dinâmica da fé
            A mensagem de Jesus se sintetiza na seguinte trilogia ‘arrependimento/fé/seguimento’. Originalmente, o imperativo “arrependei” significa mudar de mentalidade, redirecionar pensamentos e vontade para uma nova situação. Somente realizada essa operação é que a fé se torna possível. A mudança de vida e de olhar sobre a vida precede o ato de crer. E o crer se concretiza no seguimento. O processo de conversão não é instantâneo, depende de alguns passos, de maturidade assim como a fé tem seus desdobramentos. O seguimento, por sua vez, possui condições. Em Mc 10, 21, a condição de seguimento apresentada por Jesus é desfazer-se dos bens e do apego à riqueza. Não era suficiente conhecer os mandamentos. O mesmo se percebe em 8, 34, nesse caso, a condição é autonegação, ou seja, a superação da dimensão individualista.
            Portanto, a fé leva ao seguimento. Por consequência, o próprio ato de seguir já significa movimento, engajamento, ação. A fé não é meramente uma aceitação verbal e ritual de uma afirmação. Diversos testemunhos bíblicos reforçam a ideia de que a fé por si não basta. Tiago insiste que a fé sem obras é nula (2, 17). Os rituais em si não possuem valor, “mas apenas a fé agindo pela caridade” (Gl 5,6), se não houver caridade crer perde seu sentido, por dentre todas as virtudes o amor é a maior delas (1 Cor 13, 13). Elas operam juntas na vida do cristão.

3.    A Salvação pela fé
            Quando se fala em salvação, afinal, quer dizer salvação de que? Salvação é sempre de um perigo, de uma ameaça. Qual esse grande perigo ao qual todos estão sujeitos? A Carta aos Romanos diz que Cristo redimiu o homem que estava preso pelo pecado e pela obediência a Lei (Rm 3, 21). Porém, salvação tem um sentido mais amplo e na linguagem bíblica a mesma palavra possui vários significados – Shalom[2] quer dizer “tranquilidade, prosperidade, bem-estar, amabilidade e inteireza total”.
            Salvar é garantir a vida integralmente, nos seus direitos e na sua própria natureza. Então, o grande perigo para o homem é não viver integralmente a sua natureza, não se tornar aquilo que é. Quando ele se perde na escuridão do egoísmo lesa a sua vida e a vida alheia.
            A salvação entra na vida do homem pela fé, uma fé operante, mas é dada “gratuitamente” (Rm 3, 24). Os méritos cabem exclusivamente a Deus. Nesse ponto, podemos harmonizar as posturas de Paulo e Tiago. A salvação é concedida gratuitamente por Deus, é acolhida pela fé em Jesus, e se solidifica na fé que age com caridade. Em síntese, salvação na bíblia é a garantia da vida em plenitude. Não basta somente professar e ritualizar o que crê, o que autentifica o processo é a ação que garante para todos saúde, alimentação, emprego, moradia, educação e lazer.
            Na descrição do juízo, Jesus considera benditos aqueles que praticaram justiça atendendo misericordiosamente os outros e garantindo-lhes alimentação, vestuário e liberdade (Mt 25, 31). No inicio de sua pregação o mestre apresenta o seu programa de ação – evangelização dos pobres, libertação dos presos, cura dos cegos, libertação dos oprimidos. São os grandes objetivos da salvação.

4.    Considerações finais - Levanta-te e vai, tua fé te salvou
            Diante dessas reflexões em torno do imperativo “vai” e da fé que salva, resta uma proposta a pessoa de fé da atualidade. O Evangelho é uma proposta dinâmica e engajada na vida, a fé da salvação é pratica. Portanto, é difícil conceber hoje a fome, a falta de educação, de moradia, de emprego numa sociedade que se diz crista. Hoje impera um cristianismo dividido, em parte muito ritualista e pouco comprometido com a história.
            O grande desafio da geração atual é revisitar o cristianismo primitivo e decidir vive-lo com mais dedicação e entusiasmo. A passagem de um catolicismo de tradição para uma religião como opção pessoal. Aproveite o convite a salvação esta pra todos, então, levante-se e vá, ajude a reavivar sua comunidade, comprometendo-se com os valores cristãos e com um cristianismo mais atuante e menos hipócrita.


[1] Palestra proferida no III Carnaval com Cristo, Conceição de Ipanema, 15/02/2010.
[2] SCHOKEL, Luis Alonso. Dicionário Biblico-Hebraico. São Paulo. Paulo, 1997, p. 672.

Teologia 2010

ESTÁ MARCADO PARA DIA 9 DE OUTUBRO NOVO MÓDULO DE TEOLOGIA


O tema do 8º módulo será "A existência de Deus e o problema de Deus na tradição bíblica e cristã", o assunto será subdividido em:


1.    A identidade de Deus na Bíblia
2.    A unicidade e a trindade de Deus
3.    Primeiro Testamento: A perspectiva judaica
4.    Segundo Testamento: A perspectiva cristã
5.    As provas da existência de Deus na teologia
6.    O problema do mal
7.    Salvação, graça e santidade

O curso começará às 9 horas no Salão Paroquial de Conceição de Ipanema, MG.