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segunda-feira, 18 de novembro de 2019

1ª e 2ª Timóteo e Tito


AS EPÍSTOLAS PASTORAIS
1. Introdução

Desde o século XVIII, as epístolas de 1º e 2º Timóteo e de Tito são chamadas epístolas pastorais. São epístolas que têm por objetivo é passar instruções para esses “pastores” (Timóteo e Tito). As três epístolas não são consideradas de autoria de Paulo desde o século XIX. Estes textos são inteiramente distintos das obras de Paulo. A diferença de vocabulário é a razão para a rejeição da autoria paulina.[1]
As epístolas pastorais procedem de autores imediatamente ligados ao ensinamento de Paulo. Podem ter sido escritas depois da morte de Paulo por algum de seus discípulos. As razões para esta consideração são as diferenças de estilo e de teologia. Além disso, 1ª e 2ª Timóteo e Tito são epístolas de instrução. Paul Zehr as identifica como “cartas de mandado” (mandata príncipis).[2]Elas possuem um gênero epistolar específico e se diferem das epístolas paulinas autênticas. Soma-se a estas diferenças a falta delas em alguns manuscritos antigos.
São chamadas de epístolas pastorais porque são destinadas a líderes de comunidade para instruí-los de suas responsabilidades.[3] As outras epístolas paulinas são destinadas a determinadas comunidades. As duas primeiras epístolas foram dirigidas a Timóteo. Timóteo foi um discípulo de Paulo, nascido em Listra (At 16, 1-2.20, 4). Sua mãe era judia, mas seu pai era gentio (At 16,1). Ele tinha conhecimento das Escrituras desde a infância (2 Tm 3, 14-15). Sua se chamava Eunice e sua vó, Lóide (2 Tm 1,5). Acompanhou Paulo em suas missões.[4] Eusébio de Cesareia diz que Timóteo foi o primeiro bispo de Éfeso[5] e que morreu por volta do ano 97. De acordo com a obra “Atos de Timóteo”[6], ele foi assassinado por fiéis de um culto pagão durante um festival chamado Katagogia.
As epístolas foram dirigidas a Timóteo que vivia em Éfeso. A cidade de Éfeso era a capital da Província da Ásia Menor. Sua localização era próxima de um porto no mar Egeu. Era a quarta maior cidade do Império Romano e tinha uma população de, aproximadamente, 25 mil pessoas.[7] Era um campo desafiante para a missão dos primeiros cristãos. Éfeso era um centro de práticas mágicas. A religião dominante era politeísta e o culto mais influente era o da deusa Ártemis.[8]
A terceira epístola pastoral é dirigida a Tito. Este foi também um companheiro de missão de Paulo. Era natural, provavelmente, da Antioquia. Ele foi enviado para organizar a igreja em Creta. Segundo a tradição, lá ele foi bispo e morreu por volta de 107. A capital da ilha de Creta era Gortina. Tito foi bispo nesta cidade.

2. 1ª Epístola a Timóteo

A 1ª Epístola a Timóteo oferece instruções para os líderes da igreja. O propósito da epístola é corrigir falsas doutrinas que estavam sendo ensinadas na comunidade de Éfeso. O autor da epístola dá ordens a Timóteo para corrigir as pessoas que estavam ensinando falsas doutrinas (1, 3-4).
A 1ª Epístola de Timóteo tem a seguinte divisão: Endereço 1,1-2, I - Anúncio do evangelho 1,3-20, II - A organização do culto 2,1-15, III - Os ministros da igreja 3,1-16, IV - O múnus pastoral 4,1-6,2ª e Conclusão 6, 2b-21. Na primeira parte, o autor recomenda Timóteo para admoestar àqueles se ocupavam de outras doutrinas. Havia uma excessiva preocupação com o conhecimento de informações desnecessárias. O que importa é a fé em Jesus Cristo e a sua graça e misericórdia. A segunda parte trata de instruções sobre orações litúrgicas, sobre o vestuário e o silêncio das mulheres.
Na terceira parte, as instruções são dirigidas à liderança da Igreja. O autor apresenta as credenciais para o ministério dos bispos e dos diáconos. Na quarta parte, exorta sobre os cuidados pastorais e de como se relacionar com os membros da comunidade: os anciãos, as viúvas e os escravos. O texto termina retomando a preocupação inicial com o ensinamento verdadeiro e recomenda Timóteo para ser guardião da Tradição. Vejamos alguns temas da epístola:
As falsas doutrinas. Alguns “doutores” da Lei estavam levantando especulações em Éfeso a respeito de fábulas e de genealogias (1 Tm 1, 3-4). Alguns textos apócrifos procuravam saciar a curiosidade do povo por meio de histórias de personagens bíblicos. O Livro dos Jubileus narra fatos semelhantes. O tema das falsas doutrinas é retomado no capítulo 4, o autor de Timóteo condena a postura dos gnósticos que proibiam o casamento e dos cristãos judaizantes que impunham restrições alimentares. Os encratistas também o faziam (1 Tm 4, 2-3).
Jesus como mediador. Jesus é apresentador como o mediador entre Deus e os homens e que sua morte serviu de regaste da humanidade (1 T 2, 5-6). Este conceito é compartilhado com a Epístola aos Hebreus 8, 6.
Prescrição comportamental para as mulheres. Elas devem vestir-se com modéstia e sem usar adornos e acessórios (1 Tm 2, 9-10). O autor nega o direito de a mulher ensinar e recomenda o seu silêncio na assembleia (1 Tm 2, 11-14). O ponto mais obscuro desta orientação é quando o autor condiciona a salvação da mulher à maternidade (1 Tm 2, 15).
As instruções para os aspirantes a ministérios. O epíscopo. Há instrução para quem se candidata ao episcopado: deve ser esposo de única mulher, irrepreensível, sóbrio, competente no ensino (1 Tm 3, 2-3). Neste período da formação da Igreja, ainda não havia vínculo entre ministério e celibato. O diácono. Eles devem ser respeitáveis, sem o vício do álcool, sem ambição, devem ser esposo de uma única mulher (1 Tm 3, 8-13). Quanto aos presbíteros, não deve ser imposto as mãos sobre qualquer pessoa (1 T 5, 22).
As instruções são dirigidas às demais categorias de pessoas da comunidade. Os anciãos e os jovens devem ser repreendidos com afabilidade.  Às viúvas o autor pede que confiem em Deus e perseverem na oração (1 Tm 5,5).
As viúvas. A epístola nos informa a respeito de um grupo de viúvas. Elas deveriam ser inscritas a partir da idade de 60 anos e deveriam ter bons antecedentes. A condição da viúva no mundo greco-romano era de desamparo e de submissão. A necessidade de cuidar das necessidades das viúvas gerou a instituição dos diáconos em At 6,7. Na comunidade de Éfeso, havia muitas viúvas e não havia recursos suficientes para atendê-las. O autor pede atenção para aquelas mulheres verdadeiramente viúvas. As famílias que tivessem suas viúvas deveriam suprir suas necessidades para não onerar a igreja (1 Tm 5, 16). Para evitar o problema econômico, às viúvas jovens se recomendam que se casem (1 Tm 5, 14).[9]
A respeito dos escravos, o autor aconselha para que não desrespeitem seus senhores e os sirvam ainda melhor (1 Tm 6, 1-2).  Uma repreensão é dirigida aos “falsos doutores” que transformam a religião em fonte de lucro e se deixam levar pelo amor ao dinheiro (1 Tm 6 3-10). Aos ricos, o autor pede para quem sejam aconselhados sobre a instabilidade da riqueza e que eles sejam capazes de partilhar (1 Tm 6, 17-19).

3. 2ª Epístola a Timóteo

A 2ª Epístola de Timóteo tem um tom mais pessoal. O autor fala mais de si e não dá as mesmas instruções para os pastores. Se formos classificá-la como “carta de mandado”, temos relativizar de 0um pouco o conceito. O livro pode ser estruturado da seguinte forma: Endereço 1, 1-5, I – Exortações para um serviço 1, 6-2, 16, II – Instruções para uma doutrina correta 3, 1-4, 5, III – Recomendações para um encontro rápido 4, 6-18 e a conclusão 4, 19-22.
No endereçamento da epístola, Paulo (autor) deseja reencontrar Timóteo. Aparecem as informações de que a mãe Eunice e a avó Lóide de Timóteo eram cristãs (2Tm 1, 5). Em seguida, o autor recomenda a Timóteo que permaneça com o mesmo carisma que recebeu quando recebeu a imposição de mãos da parte dele. Em tom pessoal, o apóstolo fala daqueles que o abandonaram como Figelo e Hermógenes (2 Tm 1, 15). Mas se lembra dos serviços prestados por Onesíforo (2 Tm 1, 16-18).
Paulo aconselha Timóteo a se manter firme na fé apesar das adversidades e retoma a recomendação sobre as discussões excessivas que podem conduzir a falsas doutrinas. Sabemos que uma destas especulações era sobre a ressurreição (2 Tm 1, 17). Este mesmo tema é também tratado em 1ª Timóteo. O autor pede para Timóteo fugir das paixões da mocidade e seguir a justiça, a fé e a caridade (2 Tm 2, 22) No capítulo 4, há uma exortação para Timóteo como pastor para ensinar, refutar exortar a comunidade com paciência e doutrina (2 Tm 4, 2). Este tom lembra o tom da “carta de mandado”.
Todas essas recomendações a Timóteo para que ele mantivesse fiel aos ensinamentos paulinos, soam como um testamento. Paulo diz que está terminando a sua carreira e que muitos o abandonaram, apenas Lucas está com ele (2 Tm 4, 11). E chama Marcos para trabalhar com ele no ministério.  Muitos colaboradores o abandonaram, somente Lucas permaneceu com ele.  O autor se despede com saudações e recomendações ( 2 Tm4, 19-22).

4. Epístola a Tito

A Epístola a Tito assemelha-se mais à 1ª Timóteo. Logo após o endereçamento da epístola (1, 1-4), Paulo (ou alguém em seu nome) inicia suas instruções pastorais. Ele instrui Tito a instituir presbíteros em cada cidade e apresenta a exigências para que alguém seja presbítero ou epíscopo (1, 5-9). A exigência para se tornar presbítero é ser homem casado com uma única mulher, ser sóbrio e ter filhos educados (2 Tm 1, 5-6). Do modo, o epíscopo deve ser irrepreensível, sóbrio, honesto, hospitaleiro e disciplinado (2 Tm 1, 7-8).
Da mesma maneira que feita na 1ª Timóteo, o autor pede para repreender aqueles que ensinam doutrinas diferentes. Parecia haver dois procedimentos – um grupo que defendiam a circuncisão como obrigatória (1, 10) – e aquele grupo que gostava de especular sobre fábulas e genealogias judaicas (1, 13).
Em seguida, o autor recomenda exortar todas as categorias da comunidade: mulheres, jovens e escravo (capítulo 2). Os velhos devem ser sóbrios e respeitáveis. As mulheres idosas devem ser comportar como pessoas santas e exemplo para as recém-casadas.  O papel da mulher na comunidade é de submissão. As mulheres devem amar seus maridos, seus filhos e serem boas donas-de-casa. Os escravos devem ser obedientes (2 Tm 2, 1-10). As virtudes valorizadas neste contexto são o autodomínio, a justiça e a piedade (2 Tm 2, 12).
Depois faz algumas recomendações sobre comportamento civil (capítulo 3). Os cristãos devem ser submissos aos magistrados e às autoridades. Eles devem ser delicados com os outros, cavalheiros e honestos (2 Tm 3, 1-2). E encerra insistindo que Tito esteja mais atento à prática do bem do que as discussões facciosas (3, 8-11). Por fim, há uma despedida com saudações e de reclamações (3, 12-15).

Referências

HENDRIKSEN, William. 1 e 2 Timóteo e Tito. 2ª edição. São Paulo: Cultura Cristã, 2001.

ZEHR, Paul M. 1 & 2 Timothy, Titus. Pennsylvania; Ontario: Herald Press, 2010.

CARREZ, M e outros. As cartas de Paulo, Tiago, Pedro e Judas. São Paulo: Paulinas, 1987.

BOLENDER, Robert L. The life of and Epistles to Timothy. Austin: Austin Bible Church, 2009.

CESAREIA, Eusébio de. História Eclesiástica, 3.4.

GAMITO, José Aristides da Silva. Violência e gênero no texto bíblico: o silenciamento das mulheres na primeira epístola a Timóteo 2, 9-15. Revista Unitas, v. 6, n. 1, p. 1-13, 2018.

STRELAN, Rick. Paul, Artemis and Jewish in Ephesus. New York: De Gruyter, 1996.

TAMEZ, Elsa. O ministério para as viúvas e das viúvas em 1 Timóteo 5,3-16. Ribla, n. 66, p. 207-216, 2010.


[1] HENDRIKSEN, William. 1 e 2 Timóteo e Tito. 2ª edição. São Paulo: Cultura Cristã, 2001, p. 10-12.
[2] ZEHR, Paul M. 1 & 2 Timothy, Titus. Pennsylvania; Ontario: Herald Press,2010, p. 29.
[3] CARREZ, M e outros. As cartas de Paulo, Tiago, Pedro e Judas. São Paulo: Paulinas, 1987, p. 245.
[4] BOLENDER, Robert L. The life of and Epistles to Timothy. Austin: Austin Bible Church, 2009, p.4.
[5] CESAREIA, Eusébio de. História Eclesiástica, 3.4.
[6] Os “Atos de Timóteo” são uma obra escrita por Polícrata de Éfeso no final do século segundo. O texto narra alguns acontecimentos da igreja de Éfeso, inclusive, o martírio de Timóteo (https://www.nasscal.com/e-clavis-christian-apocrypha/acts-of-timothy/).
[7] GAMITO, José Aristides da Silva. Violência e gênero no texto bíblico: o silenciamento das mulheres na primeira epístola a Timóteo 2, 9-15. Revista Unitas, v. 6, n. 1, 2018, p. 1-13.
[8] STRELAN, Rick. Paul, Artemis and Jewish in Ephesus. New York: De Gruyter, 1996, p. 86.
[9] TAMEZ, Elsa. O ministério para as viúvas e das viúvas em 1 Timóteo 5,3-16. Ribla, n. 66, 2010, p. 207-216.

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Literatura e teologia paulina


UMA INTRODUÇÃO ÀS EPÍSTOLAS PAULINAS

Paulo de Tarso.
1.    Introdução

Os escritos atribuídos a Paulo ocupam a maior parte do Novo Testamento.Embora, não tenha convivido com Jesus, acabou se tornando muito influente. Pedro, Tiago e João confiaram a Paulo a evangelização dos povos de língua grega, os gentios (Gl2, 7-10). Depois ele empreendeu suas viagens missionárias. É dentro deste contexto de relação com as igrejas que fundou ou que passou a conhecer que surgem as epístolas.
As epístolas foram escritas dentro de um período de 50 a 64. Com a informação da Epístola aos Gálatas, sabemos que Paulo trabalhou pelo menos 14 anos na evangelização (Gl 2,1). Mas seu ministério durou mais do que isso.13 epístolas foram atribuídas ao apóstolo Paulo. Embora, nem todas foram escritas diretamente por ele. São elas Romanos, 1ª e 2ª Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses,1ª e 2ª Tessalonicenses (eclesiásticas), 1º e 2º Timóteo, Tito (pastorais) e Filêmon (pessoal). Algumas epístolas foram perdidas, dá-se conta de quatro.
Porém, apenas as seguintes epístolas são consideradas autênticas: 1ª Tessalonicenses (escrita por volta de 50 depois de Cristo), Gálatas (53), 1ª Coríntios (53 a 54), Filipenses (55), Filêmon (55), 2ª Coríntios (55 a 56)) e Romanos (57). Há dúvidas se Colossenses e 2ª Tessalonicenses foram mesmo escritas por Paulo. Neste estudo consideraremos a teologia de Paulo apenas a partir deste corpus mais reduzido.

2.    Teologia paulina

Cristologia de Paulo. A cristologia diz respeito ao modo como se compreende Cristo do ponto de vista da fé. Paulo chama Jesus de Senhor (Fl 2, 11). E o considera pré-existente, partícipe da obra da criação (1 Cor 8, 6). Jesus é subordinado a Deus pai (1 Cor 15, 20). O reino de Cristo tem uma função temporária até o fim dos tempos (1 Cor 15, 24). Cristo tinha condição divina, mas ao encarnar, esvaziou-se (kénosis) de sua condição e se assumiu como homem (Fl2, 6-11).[1]Jesus é o filho de Deus a quem ele ressuscitou dos mortos (1 Ts 1, 9-10).
A salvação pela fé.Paulo elabora uma doutrina foi muito influente no cristianismo. Trata-se da doutrina da justificação. A salvação vem pela fé (Rm1, 16-17). Quando a vida de Jesus a graça foi derramada sobre todos e justificou a todo. A obediência de um só homem trouxe vida e justificação para todos os homens (Rm5, 12-20). A graça torna o homem livre do domínio da Lei: “estamos livres da Lei” (Rm 7, 6). Cristo colocou o homem em outro patamar, ele não está mais sujeito ao pecado e à morte (Rm8, 1-2). Esta nova condição o leva a ser considerado filho adotivo de Deus (Rm8, 14-16).A Lei teve uma função preparatória para a vinda de Cristo. A fé em Cristo trouxe a plena liberdade. Não há mais distinção entre judeu e grego (Gl3, 23-29). No fim, a Lei se resume ao amor: “Não devais nada a ninguém, a não ser o amor mútuo, pois quem ama o outro cumpriu a Lei” (Rm 13, 8).
Sacrifício vicário de Cristo. Paulo entende a morte de Cristo como um instrumento de realização da vontade de Deus. Ele ensina que Cristo morreu pelos pecados dos homens. A morte de Cristo realizou uma reconciliação entre Deus e os homens (Rm 5, 10).  A vinda de Cristo remiu todos aqueles que estavam sob o jugo da Lei e mudou a condição de todos com a adoção filial (Gl4, 1-11).
A ressurreição de Cristo e dos homens. Paulo levanta alguns testemunhos m favor da ressurreição de Jesus. A maior esperança que o cristianismo anuncia é a imortalidade. Ele diz que depois de morto, Jesus apareceu aos apóstolos e a mais de 500 pessoas (1 Cor 15, 3-8). A ressurreição de Cristo é tomada como prova da ressurreição de todos os homens (1 Cor 15, 20-22). Cristo é o protótipo da vida e Adão, o protótipo da morte. O apóstolo esboça uma antropologia do homem ressuscitado. As suas características são um corpo incorruptível, glorioso, forte e espiritual (1 Cor 15, 42-43).
A diversidade de dons. Paulo considera que a comunidade forma um conjunto do qual todos os membros têm seu valor e sua função. Algumas comunidades primitivas valorizam muito as manifestações do subconsciente como o êxtase profético e a fala inconsciente de línguas. Tais práticas eram incorporadas ao culto. A comunidade de Corinto tinha esses costumes. O contexto da 1ª Epístola aos Coríntios indica que o dom de línguas era muito valorizado naquela comunidade. Então, Paulo esclarece que desejar os dons do Espírito é louvável, porém, tudo deve acontecer da caridade (1 Cor 14,1). Ele critica o uso ostensivo do dom de línguas e diz que o dom da profecia é mais elevado. E que a língua sem interpretação não edifica ninguém (1 Cor 14, 2-25).
Parusia. Os mortos ressuscitarão assim como Jesus. Na vinda de Jesus, os mortos precederão aqueles que estiverem vivos. Estes vivos serão arrebatados ao céu. Esta é a esperança que Paulo transmite aos tessalonicenses (1Ts 4, 13-18). Em seguida, ele diz que ninguém saberá a data da vinda de Jesus por isso ele insiste na vigilância constante (1Ts 5, 1-11).

3.    Moral paulina

A moral paulina tem como critério a liberdade. O fato de ele ter abandonado a preferência da lei em favor da graça, ele gerou uma moral segundo a liberdade na responsabilidade. Porém, sua moral não consiste num sistema fechado, há muitas proibições também.
A máxima paulina impactante é a seguinte: “Tudo me é permitido, mas nem tudo convém. Tudo me é permitido, mas não me deixarei escravizar por coisa alguma” (1 Cor 6, 12). O homem tem a liberdade de usufruir de todos os bens da criação, mas é conveniente evitar aquelas coisas que podem escravizá-lo.
Algumas listas de vícios aparecem. Em 1 Cor, 9-10, Paulo condena o comportamento dos idólatras, adúlteros, depravados, efeminados, sodomitas, ladrões, avarentos e dos bêbados. Ele sujeita esses comportamentos à herança do Reino de Deus.
Há muitas recomendações a respeito de relações sexuais. Ele condena a relação com prostitutas (1 Cor 6, 15-16). Paulo imagina a virgindade como um estado ideal (1 Cor 7,7-8), tece-lhe diversos elogios (1 Cor 7, 36-37), porém, recomenda o casamento para que as pessoas não vivessem na fornicação (1 Cor 7,2).Parece que Paulo considerava a vida de casado difícil (1 Cor 7, 27-28). A normatização de Paulo para a comunidade paulina não condena a separação de casais. O que ela não recomenda é a segunda união (1 Cor 7,10).

4. Normas cultuais

Como norma religiosa, há recomendações específicas para os cristãos gentios e diz respeito ao costume da época. Paulo os desobriga da circuncisão (1 Cor 7, 17-19) e proíbe o consumo das carnes que eram utilizadas nos sacrifícios pagãos (1 Cor 8, 7-13). Paulo compreende que os alimentos não afastam e nem aproximam ninguém de Deus, mas que comer carnes de rituais pagãos poderia levar um cristão a enfraquecer sua fé e voltar aos antigos costumes.
Este tema das carnes imoladas aos ídolos faz transparece a posição de Paulo em relação aos alimentos. Ele afirma: “Não são os alimentos que nos aproximam de Deus, se deixamos de comer, nada perdemos; e, se comemos, nada lucramos” (1 Cor 8, 8). Em outra passagem, ele diz claramente que se pode comer de tudo que se vende no mercado (1 Cor 10, 25-26). O cristianismo das comunidades paulinas não tinha uma dieta de motivação religiosa. Isto significa que até as proibições alimentares do Antigo Testamento não foram acolhidas por eles.  Na antiguidade, havia grupos que se preocupavam com isso. Os cristãos encratistas tinham restrições alimentares. Eram vegetarianos.
Dentre as normas cultuais, há também a argumentação de Paulo em favor de um salário para aqueles que se dedicam ao evangelho. Quando discorre sobre isso, o apóstolo informa que não aplica este procedimento a si, ele pregava gratuitamente (1 Cor 9, 8-14).No capítulo 11, Paulo critica a pressa de alguns em comerem a ceia antes dos outros (1 Cor 20-21).
O debate sobre o dom de línguas leva Paulo a nos informar como eram as assembléias. Havia cânticos, ensinamentos, revelação. Os profetas tomavam a palavra. E só deveria falar em línguas se tivesse o intérprete (1 Cor 14, 26-33).Quanto às mulheres nas assembléias, a recomendação é de que usem o véu (11, 2-16) e não façam uso da palavra (1 Cor 14, 34).

Referências

EAGLEN, Jason. The presence of “high” christology in the letters of Paul the apostle. Master´s thesis.University of Georgia, 2006.

RAMOS, José Augusto, PIMENTEL, Maria Cristina de Sousa, FIALHO, Maria do Céu; RODRIGUES, Nuno Simões (coords.).Paulo de Tarso:Grego e Romano, Judeu e Cristão. Coimbra: FCT, 2002.



[1] EAGLEN, Jason. The presence of “high” christology in the letters of Paul the apostle. Master´s thesis. University of Georgia, 2006, p. 2-3.

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Cristianismo nascente


A IGREJA APOSTÓLICA A PARTIR DOS ATOS DOS APÓSTOLOS

1.Introdução


Os Atos dos Apóstolos são um texto do gênero “romance de aventuras” no qual são relatados os primeiros passos da Igreja. É uma obra considerada continuidade do Evangelho de Lucas e escrita entre os anos 61 a 63. Ele é importante para compreender a formação do cristianismo na fase apostólica e funciona como contexto social e histórico para a leitura das cartas paulinas.
Lucas dirige seu relato a um determinado Teófilo (At 1,1). Depois da ascensão de Jesus, os discípulos permaneceram em Jerusalém (At 1, 9-14). Depois do episódio de Pentecostes (At 2, 1-13), os apóstolos começaram a pregar e a testemunhar sobre a ressurreição de Jesus. Inicialmente, os cristãos eram apenas um grupo de judeus que se reuniam em torno do nome de Jesus. O convite da pregação apostólica se resumia em: a) arrependimento e batismo em nome de Jesus para a remissão dos pecados (At 2,38), b) a recepção do Espírito Santo. Vamos a compreender a estrutura do livro!

2. A estrutura dos Atos dos Apóstolos

O texto começa com a introdução (1,1-26) na qual o autor comenta sobre sua intenção de continuar os relatos sobre os apóstolos (1-3). Ele contém um nexo com o terceiro evangelho, apresenta Jesus fazendo suas últimas recomendações aos discípulos e ascendendo ao céu (4-11); estes voltaram para Jerusalém e ficam aguardando o Espírito Santo (12-14); Matias substitui Judas no grupo dos doze (15-26).
O corpo do texto pode ser assim dividido: Primeira parte (2,1-8,3). A mensagem evangélica em Jerusalém. 1. Descida do Espírito Santo e inícios da Igreja (2,1-47). 2. Cura do paralítico, lutas de Pedro e dos apóstolos contra o Sinédrio e primeira perseguição (3,1-4,31). 3. Progresso e vida interna da Igreja, como efeito da obra e dos prodígios dos apóstolos. Ananias e Safira. Segunda perseguição (4,32-5,42). 4. Eleição dos diáconos helenistas; missão de Estêvão e seu martírio; terceira perseguição com a consequente dispersão dos fiéis (6,1-8,3).
Segunda parte (8,4-12,25). Os apóstolos continuam a pregação de Jesus enfatizando sua ressurreiçãona Judeia e na Galileia, na Samaria e entre os gentios, até Antioquia. 1. Missão de Filipe (confirmada por Pedro) entre os samaritanos e com o eunuco etíope (8,4-40). 3. Missão de Pedro na Judéia e entre os gentios, em Cesareia (9,31-11,18). 4. A Igreja entre os gentios na Fenícia, Síria e Antioquia (11,19-30). 5. Quarta perseguição, morte de Tiago, prisão e libertação de Pedro, morte do perseguidor (12,1-25).
Terceira parte (13,1-28,31). Depois das perseguições sofridas no território da Palestina. Os apóstolos começam a enviar pessoas para evangelizar outras regiões. A mensagem é dirigida ao mundo greco-romano. 1.Primeira viagem apostólica de Paulo: na Ásia Menor (13,1-14,27). 2. Concílio de Jerusalém, que sanciona a independência em face da lei para os gentios (15,1-34). 3.  Segunda viagem apostólica de Paulo: na Macedônia e na Grécia (15, 35-18,22). 4. Terceira viagem apostólica de Paulo: na Ásia Proconsular, na Grécia e na Macedônia, até ao Epiro (18,23--21,16). 5. Prisão de Paulo em Jerusalém e mensagem ao Sinédrio (21,17-23,11). 6. Prisão em Cesareia e mensagem para Félix, Festo e Agripa (23,12-26,32). 7. Viagem até Roma, prisão e mensagem aos judeus e aos gentios (27,1-28,31).

3. Igreja de Jerusalém

A Igreja que se reuniu em Jerusalém continuava frequentando o Templo. O autor de Atos mostra Pedro e João indo ao Templo para a oração das três horas (At 3,1). As Escrituras passaram a ser interpretadas a partir da vida de Jesus e a fração do pão tornou-se um hábito característico deste novo grupo (At 2, 42). Os apóstolos atraíam seguidores por meio de sinais e de prodígios (At 5,12). Mas a relação entre esta nova seita e o judaísmo tradicional foi se complicando. Começaram as prisões e as acusações. O Sinédrio tornou-se o grande opositor dos cristãos em Jerusalém. Por diversas vezes, os apóstolos foram presos e interrogados. O famoso rabino Gamaliel aconselhava para que perseguissem os apóstolos porque considerava este movimento passageiro como aconteceu com Teudas e Judas, o Galileu (5, 34-39).
À medida que o número de seguidores ia aumentando, os apóstolos foram criando novos procedimentos administrativos para coordenar o grupo. Eles, então, instituíram um grupo de sete homens para organizar os trabalhos, principalmente, para a assistência às viúvas: Filipe, Prócoro, Nicanor, Timon, Pármenas e Nicolau (6, 1-6). A partir deste grupo, notamos a presença de seguidores de fora de Jerusalém.
A Igreja nasce e se organiza a partir de Jerusalém. Havia discípulos na Judeia, na Galileia e na Samaria (9, 31). Como havia judeus espalhados por todas as regiões do Império Romano, estes se tornaram pontos de contatos para que o cristianismo fosse difundido. Em muitas cidades em torno do mar Mediterrâneo havia sinagogas. Filipe, logo no início dos Atos, converte e batiza um etíope (8, 26-31). Paulo, porém, será o elo mais exitoso da difusão do cristianismo entre os gregos. Depois de sua conversão, ele enviado para Tarso (9, 30).
A partir da morte de Estêvão, muitos discípulos foram para a Fenícia, Chipre e Antioquia. Inicialmente, eles procuraram converter somente judeus. Porém, alguns cipriotas e cretenses acabaram pregando para os incircuncisos em Antioquia. Barnabé partiu de Jerusalém e levou Paulo para trabalharem em Antioquia (11, 19-25). Com esta primeira expansão da Igreja, Paulo e Barnabé são separados para pregar as cidades helenistas (12, 25).

4. Cristianismo judaico e cristianismo helenista

Durante as três primeiras décadas, a Igreja foi se expandindo pelas comunidades da Ásia Menor e chegou até Roma. Naquele primeiro momento, havia dois modelos de cristãos: a) aqueles que foram judeus praticantes e continuaram observantes da Lei; b) aqueles de origem grega que, influenciados por Paulo, não seguiam a Lei judaica. Esta diferença foi motivo de descontentamento entre os cristãos de Jerusalém, Pedro proclamou o princípio da graça em detrimento do império da Lei (15, 7-12). Os crentes judaico-cristãos continuavam sendo judeus que aceitavam Jesus como Messias. Porém, os crentes que não eram de tradição judaica receberam o Evangelho sem esta base. Portanto, estes posicionamentos de fundo cultural geraram diferenças nas igrejas.
No primeiro século, constituíram-se várias igrejas, porém, cinco ganharam destaque devido a sua importância política: Jerusalém, Antioquia, Alexandria, Bizâncio e Roma. As comunidades tinham diferentes características. Além da relação com a Lei, o modo de administração eclesial também era diferente, aquelas judaico-cristãs eram dirigidas por um colégio de presbíteros. As gregas tinham como autoridade o binômio bispo-diácono. As grandes diferenças foram se unificando no decorrer do século II.[1]
Na tradição do Novo Testamento, os judeus cristãos seguiam o Evangelho de Mateus. Havia grupos utilizavam o Evangelho dos Nazarenos e dos Hebreus. Alguns desses grupos compreendiam que Jesus era um anjo. A cristologia desses se adequava às categorias do Antigo Testamento.O grande líder em torno da Igreja de Jerusalém era Tiago, irmão do Senhor. Como o número de comunidades gregas foi sendo maior, o modelo de cristianismo helenista foi prevalecendo.
A situação política da Palestina contribuiu muito para a separação definitiva entre judaísmo e cristianismo. Depois de muitos anos de conflitos de forças rebeldes judaicas contra os romanos, finalmente, o imperador romano ordenou a destruição de Jerusalém no ano 70.Alguns estudiosos consideram este evento traumático para os judeus e com consequência para o cristianismo nascente (Brandon, Jonathan Draper). Os grupos judaico-cristãos continuavam sua vida vinculada ao Templo e à observância da Lei, com o evento do ano 70, eles tiveram que se rearranjar. Muitos viram neste acontecimento uma punição aos judeus por rejeitarem Jesus.[2]
Depois de 70, os judeus cristãos tiveram de se espalhar pelo mundo romano. As igrejas inicialmente eram locais e as atividades dos apóstolos eram itinerantes. As primeiras igrejas eram domésticas. A estruturação administrativa, os dogmas, os sacramentos e os ministérios foram se constituindo ao longo do tempo. O Novo Testamento é testemunho de uma igreja que ainda não estava madura. No decorrer dos Atos dos Apóstolos, vamos percebendo as soluções que os apóstolos dão para os novos problemas. Eles instituem novos ministérios, fazem viagens missionárias, organizam ajudas financeiras a outra igreja.

5. A formação da Igreja nos Atos dos Apóstolos

Os Atos dos Apóstolos apresentam algumas características da comunidade primitiva. Lucas mostra um retrato ideal da comunidade de Jerusalém dizendo que os cristãos seguiam os ensinamentos dos apóstolos, respeitavam a comunhão fraterna, fazem a fração do pão e as orações (2, 42). A Igreja nasce apostólica. Isto quer dizer que os ensinamentos que a formam são de autoridade dos apóstolos. Quando há a controvérsia sobre a necessidade da circuncisão, Paulo e Barnabé recorrem aos apóstolos (15, 1-4). A primeira Igreja é a de Jerusalém. A autoridade das primeiras decisões coube a Pedro (2, 14; 3,11). É ele que dirige os primeiros discursos aos judeus defendendo a ressurreição de Jesus. Mas tarde, Paulo se destaca na evangelização dos gentios. Foi em Antioquia que os seguidores de Jesus foram chamados de “cristãos” pela primeira vez (11, 26).
Os ministérios eram exercidos pelos apóstolos e algumas pessoas às quais eles confiavam poder. Eles instituíram diáconos para os helenistas (6,1). Havia entre eles profetas (11, 27) e também doutores (13, 1). O caminho da atividade de Paulo nas cidades gregas inicialmente foram as sinagogas (18,4). Elas funcionavam como ponto de penetração do anúncio nas cidades. Este é o procedimento de Paulo na sinagoga de Antioquia da Pisídia (13, 14-16) em Icônio (14,1).
A doutrina original da comunidade apostólica consiste na Lei judaica interpretada a partir da proclamação de Jesus como Cristo e Senhor Ressuscitado. O batismo desde o início foi o ritual de entrada para a comunidade cristã (8, 26-39). Pedro desobriga os gentios de passarem pela circuncisão (15,7-12). Tiago orienta para que os crentes helenistas se abstenham da carne dos sacrifícios e das uniões ilegítimas (15, 19-21).

5. Paulo nos Atos dos Apóstolos

            Uma parte considerável dos Atos é dedicada a contar as viagens missionárias de Paulo. Paulo era um cidadão romano (22, 22-29), natural de Tarso, na Cilícia (21, 37-40). Porém, fora educado em Jerusalém e fora aluno do rabino Gamaliel (22, 3). Sua família pertencia ao partido dos fariseus (23, 6). Seu zelo de fariseu, o fez perseguir os apóstolos até acontecer sua conversão no caminho de Damasco. Devido a sua instrução, os apóstolos o incumbiram de evangelizar os povos de língua grega. Ele realizou três viagens e fundou várias comunidades. Partindo de Antioquia, Paulo foi a Chipre (13, 1-12), de Chipre foi a Antioquia da Pisídia (13, 13-52), deIcônio voltou a Antioquia (14, 1-28). Na segunda viagem, ele vai em direção à Ásia (15, 36-16, 8), depois parte em direção à Europa (16, 12-18. 18). De regresso a Antioquia, empreendeu uma terceira viagem para a Macedônia (18, 23-20,3) e para Filipos (20,6). Todas essas cidades servem de contexto histórico para as cartas de Paulo. Na última parte, Paulo é levado a Roma preso (27).
            A expansão do cristianismo deveu muito às ações de Paulo e de seus companheiros. A sua intenção era chegar até a Espanha (Rm 15, 24-25). Porém, antes disso, ele foi preso em Jerusalém. Por causa de sua cidadania romana foi levada a Roma onde enfrentou uma espécie de prisão domiciliar. Os Atos dos Apóstolos terminam informando que Paulo ficou dois anos nesta condição em Roma. Uma tradição extraneotestamentária informa que ele foi morto em 67.

6. O cristianismo primitivo

O Novo Testamento descreve o cristianismo de um período de 50 a 100 depois de Cristo. Trata-se de uma religião embrionária. O cristianismo nascente era chamado pelos seus seguidores de Caminho (24,14). Mas os judeus tradicionais rejeitavam completamente a identificação de Jesus com o Messias por isso eles chamavam o cristianismo de seita dos nazareus (24,5). Os vários conflitos que ocorreram entre judeus e cristãos se deve a esta divergência de interpretação da Lei. Como os cristãos, inicialmente, freqüentavam a sinagoga, esta relação gerou um desgaste. Depois da dispersão do ano 70, o cristianismo foi distanciando do judaísmo. Alguns historiadores, porém, estabelecem uma data de ruptura definitiva somente por volta de 150.
Os Atos dos Apóstolos se concentram nas atividades de Pedro e de Paulo. Depois do capítulo 13, Pedro é relembrado novamente no Concílio de Jerusalém. Daí, a partir do capítulo 16, a atenção volta-se plenamente para Paulo. Os Atos pretendem contar os fatos dos primeiros 30 anos do Caminho. Onde estavam e que estavam fazendo os demais apóstolos? Esta lacuna é preenchida pelos Atos apócrifos. São alguns atos apostólicos: Atos de João, Atos de André, Atos de Paulo, Atos de Pedro, Atos de Tecla e Atos de Tomé.
Através destes textos sabemos que André e João atuaram na Ásia Menor, que Pedro foi para Roma e Tomé para a Índia. Se estes fatos forem históricos, considerando que Paulo tenha ido até a Espanha, ele e Tomé atingiram os maiores extremos da expansão do cristianismo (leste a oeste).

Referências

REINHARTZ, Adele. The Destruction of the Jerusalem Temple as a Trauma for Nascent Christianity, p. 275-288.


[1] HAMANN, A Vida cotidiana dos primeiros cristãos. P. 112.
[2] REINHARTZ, Adele. The Destruction of the Jerusalem Temple as a Trauma for Nascent Christianity, p. 275-288.

domingo, 3 de novembro de 2019

Evangelho de João


EVANGELHO DE JOÃO

Era João o discípulo amado? Um mistério.

1. Introdução

O Evangelho de João é o mais tardio. Foi escrito por volta de 90 a 110. É uma obra anônima que foi atribuída a João, filho de Zebedeu. Seu estilo e conteúdo se aproximam das três cartas e do Apocalipse. Alguns estudiosos consideram estes livros como produção de uma comunidade relacionada ao apóstolo João. Porém, as obras são de autores diferentes.
É um evangelho totalmente diferente dos Sinóticos. Ele não inclui a descrição do batismo de Jesus, o chamado dos Doze, exorcismos, parábolas, a Transfiguração e a última ceia. Uma marca característica dos evangelhos mais antigos são as parábolas. Elas aparecem abundantemente em Marcos, Mateus, Tomé e Lucas.João contém alguns tipos de alegorias, mas propriamente as parábolas. O ministério de Jesus acontece dentro de um ano nos sinóticos, mas em João, foi dentro de três anos. A cronologia segue uma ordem diferente.

2. Estrutura do texto

O Evangelho de João se compõe de quatro grandes seções: Prólogo sobre o Verbo (1,1-1,18), Livro dos Sinais (2,1-12,50), Livro da Hora ou da Glória (11,1-20, 29), uma conclusão (20, 30-31) e o epílogo do 21,1 – 23. O primeiro livro inclui desde o casamento em Caná (2,1) até a ressurreição de Lázaro (12,50). Este primeiro livro contém sete sinais de que Jesus é o Filho de Deus, o Verbo encarnado.

O “Livro dos Sinais”, do ponto de vista narrativo, relata os setesinais realizados por Jesus ao longo do ministério público, começando exatamente nas Bodas de Caná. Jesus já é conhecido pelos seus discípulos e apresenta-se em plena atividade adulta, deslocando-se continuamente entre a Galiléia e Jerusalém. Os sete sinais, gestos(expulsão dos vendilhões do Templo), diálogos (com Nicodemos, com a Samaritana, com Marta e Maria), o discurso revelatório aos discípulos (Jo 6), as controvérsias com os Judeus (Jo 5, 7, 8, 10) ao longo deste livro querem conduzir o leitor para a realidade da fé naquele que realiza os Sinais e que revela a sua “glória” por meio deles: a glória, que se revelará definitivamente na “hora” da elevação na cruz. Aquele que realiza os Sinais é chamado insistentemente com o título “Filho”, “Filho de Deus” e “Filho do Homem” numa proporção muito maior que no resto do Evangelho. No Livro dos Sinais há a grande concentração dos títulos da filiação divina de Jesus.[1]

            O segundo livro interno de João é o Livro da Hora (11,1 – 20, 29). Esta unidade funciona como a realização da primeira. Os sinais são preparatórios para confirmar quem é Jesus. A hora conduz ao estágio final da glorificação. No 12, 23 aparece a expressão “É chegada a hora em que será glorificado o Filho do Homem”. Jesus diz que veio justamente por causa desta hora (12, 27). Na conclusão desta unidade, reaparece o tema da fé que é tão caro ao evangelista: “Porque viste, creste” (20, 29).[2]
            A conclusão está no 20, 30-31. Ela informa que Jesus realizou outros sinais que não estão naquele evangelho. E o motivo da redação do livro é para que os outros possam crer apartir dos sinais. Esta informação é repetida através de uma segunda conclusão em 21, 24-25. É um acréscimo de outro autor. Há um epílogo do 21,1 – 23 com aparição de Jesus ressuscitado no mar de Tiberíades.[3]

3. Características literárias e temáticas

O Evangelho de João possui um prólogo que contém um gênero literário totalmente diverso das demais seções. Trata-se de um hino cristológico que identifica Jesus com o Logos.
A seção narrativa se inicia com o ministério de Jesus. João testemunha em favor da messianidade de Jesus. Além do prólogo, as diferenças deste evangelho em relação aos Sinóticos é grande. João tem uma metáfora única para falar da missão de Jesus. Ele o chama de Cordeiro de Deus (Jo 1, 29).
São características importantes em João uma preocupação temática com o tempo. Dois discípulos de João foram à casa de Jesus pela décima hora.[4] No episódio das bodas de Caná, Jesus diz à sua mãe que sua hora ainda não tinha chegado. O evangelista introduz a perícope de 2, 1-12, com a expressão “No terceiro dia”. Portanto, toda a narrativa é construída em torno desta marcação do tempo.
A construção da idéia do tempo está relacionada com outra preocupação de João que são os sinais. O primeiro deles é o milagre de Caná (2,11). Os sinais eram realizados para que as pessoas acreditassem em Jesus (2, 23). O evangelho aborda um conflito entre a fé e a incredulidade. Por meio de sinais e de discursos Jesus revela sua identidade e a vontade do Pai.
Neste evangelho, Jesus discursa mais e sua fala é altamente mística. Ele se identifica com o Filho do Homem vindo do céu (3, 14). Os contrários mundo/reino, trevas/luz, verdade/mentira, estão presentes no modo como situa os discípulos no mundo em relação à sua mensagem. A identidade de Jesus é apresentada através de diversas metáforas: Pão da vida (6, 35), luz do mundo (8,12), porta das ovelhas (10, 7), bom pastor (10, 11), filho de Deus (10, 36), ressurreição e vida (11, 25), mestre e senhor (13, 13), caminho, verdade e vida (14,6) e a videira (15, 1). Além disso, Jesus se identifica com o Pai (14, 10).

4. A teologia de João: Verbo, sinais e a hora

O Evangelho de João é menos documental-histórico, destaca-se mais como uma leitura teológica da vida e da identidade de Jesus. É um testemunho sobre as obras de Jesus. Seu autor apresenta Jesus através de sinais que comprovam sua origem divina e sua mensagem traz uma verdade que separa as pessoas entre os que creem e os que não creem. A fé em Jesus conduz à vida eterna porque ele é caminho, verdade e vida. Essas metáforas aparecem constantemente para descrever a identidade mística de Jesus.
A identificação de Jesus com o Verbo é uma noção de ambiente grego. O Verbo ou Logos é um conceito presente em vários filósofos gregos. No estoicismo, movimento filosófico influente no tempo do Novo Testamento, ele é um princípio religioso e cósmico. É o princípio regulador do universo. Portanto, não se trata apenas de um som (palavra), mas de um princípio racional. No contexto cristão, o Logos é o modelo ideal e o agente da criação.
Os sete sinais da autoridade de Jesus. João não fala milagres, mas em sinais: 1º - Casamento em Caná (2, 1-11); 2º - cura do filho de um oficial de Herodes (4, 46-54); 3º - cura do paralítico no tanque de Betesda (5, 1-15); 4º - multiplicação dos pães e dos peixes para alimentar uma multidão (6, 1-15), 5º - caminhada sobre as águas do mar da Galileia (6, 16-21); 6º cura do cego de nascença (9, 1-7) e 7º - ressurreição de Lázaro em Betânia (11, 1-45).
A ressurreição de Lázaro gera a conspiração contra Jesus (11, 46-53). Os fariseus estavam preocupados com a popularidade de Jesus e o fato de ele pretender a coroa. No 11, 53, lê-se “Desde aquele dia, resolveram matá-lo”. A morte de Jesus aparece como o oitavo sinal e este o conduz a glorificação. Toda a preocupação de Jesus com sua hora que começa desde o casamento de Caná tem seu desfecho na morte.
O panorama teológico desenvolvido por João possui um vocabulário insistente. Seu evangelho é apresentado como o testemunho do discípulo para que os outros creiam. O termo martyría ocorre várias vezes. Ao lado dos sinais que são fatos que comprovam a identidade messiânica, há os testemunhos. O primeiro testemunho é de João: “tenho testificado que este é o Filho de Deus” (1, 34). Jesus comenta que se ele testemunhasse a respeito de si não seria considerado verdadeiro, mas havia outros testemunhos sobre ele (5, 31-32). Um deles é o testemunho de João. O segundo é as obras que Deus lhe permitiu realizar (5, 36). Mas como ninguém ouviu o parecer de Deus, existem as Escrituras que testemunham a favor de Jesus (5, 39).
Uma discussão semelhante sobre a validade do testemunho é retomada no capítulo 8, 13. Jesus recorda que a Lei exige a testemunha de duas pessoas para ser verdadeiro, ele diz que ele testemunha sobre si e o Pai também (8, 18). Na crucificação, o evangelista diz aquele que viu estes fatos dá testemunho e ele é verdadeiro (19, 35). Portanto, todo o livro internamente e externamente funciona como uma coleção de testemunhos (20,31; 21,24).
O testemunho é uma importante fonte de conhecimento e o autor do evangelista parece que tinha consciência disso. Ele apresenta a sua obra insistindo na importância da testemunha ocular. Há três ou quatro testemunhos importantes: a) Testemunho de João; b) Testemunho de si/Testemunho do Pai e c) Testemunho das Escrituras. A primeira Epístola de João inicia com a mesma preocupação. Ela fala da testemunha ocular que transmite a fé aos novos cristãos (1 Jo 1, 1-3).
Afinal, este testemunho é sobre quê e sobre quem? É sobre Jesus e sobre o evento da encarnação. É um testemunho sobre a luz verdadeira que veio iluminar todo homem e lhe oferecer condições para alcançar a vida eterna. Esta luz causa uma divisão entre aqueles que a reconhecem e são salvos e aqueles que a rejeitam e são condenados.


Referências
MINCATO, Ramiro. A Macroestrutura Narrativa do Quarto Evangelho. Teocomunicação, Porto Alegre, v. 37, n. 155, 2007, p. 49-59.



[1]MINCATO, Ramiro. A Macroestrutura Narrativa do Quarto Evangelho. Teocomunicação, Porto Alegre, v. 37, n. 155, 2007, p. 49-59.
[2]MINCATO, 2007, p. 49-59.
[3]MINCATO, 2007, p. 49-59.
[4] Nesta contagem do tempo, a décima hora corresponde às 16 horas. Há várias designações de horas em João.  A primeira hora seria as 6 horas da manhã (F. D. Bruner, Carson, Jamieson, Keener, Köstenberger, Kruse, MacArthur, Morris, Stallings). A divisão das horas dos judeus: Primeira (6 horas); Terça (9 horas), Sexta (12 horas); Nona (15 horas).