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sexta-feira, 29 de março de 2019

Introdução ao Estudo da Bíblia


MÓDULO 02 – INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA BÍBLIA[1]


1.        Introdução

A Bíblia não é um livro. É uma coleção de livros de diferentes épocas, lugares, gêneros e temáticas.  A leitura da Bíblia é pessoal e livre, porém, sua interpretação depende de um instrumento, de um método. O leitor atual se distancia no tempo, no espaço e na cultura do redator daqueles livros. Para a aproximação mais proveitosa da leitura desses textos antigos recorremos ao auxílio de algumas ciências como a história, a geografia, a hermenêutica.

2.        Histórico da redação e formação da Bíblia

O nome bíblia vem da língua grega biblía, plural de biblíon “livrinho”. Os judeus a denominavam de “Os livros sagrados”, na história coexistiram diversos nomes. No século V, a partir de João Crisóstomo, a expressão Tá Biblia começa a ser título.
Os termos “antigo testamento” e “novo testamento” assinalam as duas seções da Bíblia. O primeiro é escritura exclusivamente judaica. Já o segundo é judaico e cristão. Neste curso, chamaremos o AT de Escrituras Judaicas e o NT, de Escrituras Cristãs. Testamento reproduz o hebraico berît “aliança”. Paulo é o primeiro a usar esses nomes, sendo depois adotados pelos escritores cristãos do século III.
O processo de redação da Bíblia dependeu de muitos séculos. Não se trata de um texto unificado, linear. O AT[1] foi escrito de 1300 a. C. até 50 a. C. O NT foi elaborado dos meados do século I (51 d. C.) ao início do século II (100 d. C.).
Os títulos dos livros são tardios e alusivos ao conteúdo. Os judeus nomeavam os livros com as primeiras palavras do texto: Bereshît (“no princípio”) = Gênesis.
A divisão em capítulos data somente do século XIII, feita pelo cardeal Estêvão Langton e a subdivisão em versículos de 1551, por Robert Estienne.
As divergências na organização dos livros da Bíblia decorrem da diferença entre a Bíblia Hebraica (Palestina) e Bíblia Grega (Alexandria): Os salmos são numerados de forma diferente, na Bíblia grega os salmos9 e 113 são divididos em dois.
Os manuscritos eram feitos em pergaminhos (até o século II d. C.), que se desgastavam rápido, chegaram a nós, cópias de cópias. Na antiguidade e na idade média, eram poucas pessoas alfabetizadas. A Bíblia foi transmitida de gerações em gerações graças aos escribas profissionais e aos monges copistas. A sua propagação maior se deu a partir da invenção da imprensa pelo alemão Johannes Gutenberg em 1439.

3.        As partes que compõem a Bíblia

A tradição cristã ratificada no Concílio de Trento (1545-1563) reconhece 46 livros do AT. São divididos em: Históricos (21), didáticos (7), proféticos (18). Os cinco primeiros livros formam o Pentateuco. Na antiguidade não existia uma lista fixa de livros sagrados. Mas uma tradução dos livros judaicos do hebraico para o grego feita em Alexandria (Egito) do século III ao II antes de Cristo, esta continha todos os livros hoje conhecido como deuterocanônicos (para os católicos) ou como apócrifos (para os evangélicos). Porém, nos fins do século I, o concílio de Jâmnia determinou que somente os livros escritos em hebraicos seriam canônicos e isto excluía os deuterocanônicos.
O NT é composto por 27 livros, sendo: Históricos (5), didáticos (21), profético (1). Apesar de ter havido várias listas divergentes dos textos canônicos do NT, o consenso tornou-se unânime a partir de 397 depois de Cristo com o Concílio de Cartago.
A Bíblia Hebraica, estritamente falando, é dividida em: Torah (Pentateuco), Nebiim (profetas), Ketubim (os escritos), ao todo 39 livros. Este são os livros reconhecidos pelos seguidores do judaísmo. A edição da Bíblia Hebraica é conhecida como Tanak.

4.    As línguas originais

A Bíblia não foi escrita em português. Lemos traduções. Este fato é importante. O hebraico, o grego e o aramaico foram as línguas originais.
Em hebraico foi escrito todo o AT, com exceção dos livros chamados deuterocanônicos. Alguns textos poucos foram redigidos em aramaico como seis capítulos de Daniel, três de Esdras e um versículo de Jeremias.[2]
Em grego comum, além dos já referidos livros deuterocanônicos do AT, foram escritos praticamente todos os livros do NT. Segundo a tradição cristã, o Evangelho de Mateus teria sido primeiramente escrito em hebraico.

5.    Traduções e versões

A dispersão do povo judaico exigiu uma tradução dos livros para o grego. Esta foi concluída no ano 100 a. C. Chamada de versão dos Setenta, posteriormente adotada pelos cristãos.
No século II a. C., houve muitas versões, havia divergências quanto à aceitação por serem imperfeitas. No século V, Jerônimo realiza uma tradução ótima para o latim, conhecida como Vulgata. Recomendada pelo Concílio de Trento.
Para o português, a mais antiga e completa foi a tradução de João Ferreira de Almeida (1628-1691) publicada em 1753. É importante observar que atualmente não possuímos o texto original. Há apenas fragmentos de cópias antigas. As traduções não são exatas.
Mesmo diante dessas limitações históricas a fé cristã professa que a Bíblia é inspirada[2] (2Tm 3, 16-17), fielmente transmitida e preservada de erros em questões de fé e moral. A esta preservação de erros em questões fundamentais dá-se o nome de inerrância[3].  Mas isso não significa que não existam imperfeições materiais no texto bíblico.

6.    Canonicidade

Havia diversos escritos religiosos judaicos. Foi feita uma distinção e seleção dos livros inspirados. A Bíblia Grega do século I adotou livros não-contidos na hebraica. A questão só foi resolvida no século II. O primeiro cânon oficial do NT surge no Sínodo de Hipona, em 393. Lutero retomou o debate e a tradição protestante preferiu o cânon judaico. O Concílio de Trento reconheceu oficialmente o cânon alexandrino.
Quando se fala em cânon, estamos dizendo da lista de livros aceitos como inspirados por Deus. Portanto, existem dois cânones: Hebraico e alexandrino. O cânon hebraico contém 39 livros no AT. E o cânon alexandrino possui 46. Os livros que foram acrescentados são chamados de deuterocanônicos[4]. Esses livros são Tobias, Judite, I e II Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc e trechos de Ester (10, 4 a 16, 24) e Daniel (3, 24-90, e capítulos 13 e 14). A tradição católica acolheu o cânon alexandrino e a protestante, o hebraico.

7.    A Bíblia como literatura

A Bíblia é a literatura antiga dos judeus e dos cristãos. Ou seja, é um conjunto de escritos de vários gêneros e estilos. Cada modo de escrever exige também um modo próprio de interpretar. Tradicionalmente, distinguem-se dois sentidos: O sentido expresso pela palavra (sentido literal) e o sentido espiritual transmitido pelo texto (sentido pleno).
Existem dois estudos próprios da interpretação da Bíblia que são a exegese e a hermenêutica. Através desses estudos estabelecem-se critérios para entender um texto. É preciso considerar os seguintes aspectos:
Condicionamentos de tempo - Os livros da Bíblia são fruto do seu tempo. Por isso, se quisermos conhecer a mensagem de Deus, temos de conhecer o tempo e as circunstâncias históricas em que foi escrito cada um desses livros.
Condicionamentos de espaço - Uns nasceram na Arábia e outros na Palestina; uns no mundo helênico e outros no Império Romano; cada qual com o ambiente próprio, e o livro é filho também do ambiente que o viu nascer.
Condicionamentos de raça - Os livros da Bíblia procedem quase todos da raça semita e mais concretamente do Povo Judeu, que tem um modo de pensar e de se exprimir muito diferentes do nosso, que é preciso conhecer para entender a Palavra de Deus.
Condicionamentos de cultura - Além da cultura, também da mentalidade e da ciência dos autores que trabalharam na composição dos livros sagrados. Alguns livros levaram séculos a formar-se e são obra de muitos autores com mentalidades e cultura diferentes, e embora fossem inspirados, não foram privados da sua personalidade.

8. Gêneros e figuras de linguagem

Em se tratando dos gêneros, temos: Poesia e prosa. Do gênero poético, temos na Bíblia: canção (canções de guerra, de culto e canções profanas), poesia sapiencial (poemas didáticos, coleções de sentenças), sentenças e máximas e literatura profética (repreensões, ameaças, consolações, confissões e oráculos). Quanto à prosa: leis, documentos (contratos, decretos e genealogias[5]), preces, apocalipses (descrições do juízo final em forma de visões), narrativas edificantes (novela histórica), narrativas biográficas dos profetas, história da salvação, profecias e cartas.
O texto bíblico possui várias formas de expressão. Às formas indiretas e figuradas de se expressar damos o nome de figuras de linguagem. É importante conhecer as mais usadas: Comparação, metáfora, parábola, alegoria, fábula, símbolo, sinédoque, metonímia, antonomásia e hipérbole.
Explicação das figuras. Metáfora: É uma comparação abreviada. Metonímia: Troca de nomes relacionados entre si. Parábola: Uma narrativa que faz uma comparação imaginária. Alegoria: Uma metáfora, com sentido transferido, por semelhança. Fábula: Narrativa de cunho moral, na qual seres inanimados ou animais se comportam como o ser humano. Sinédoque: Designação do todo pela parte. Antonomásia: Substitui o nome por um qualificativo. Hipérbole: É um exagero de linguagem.

9. Geografia

O ambiente onde foi escrita a Bíblia envolve as regiões da Palestina, as comunidades gregas e Alexandria. Os livros protocanônicos nasceram na Palestina. Os deuterocanônicos surgiram no ambiente grego de Alexandria. O NT foi escritos em diversos lugares, desde a Palestina até as comunidades gregas. Portanto, duas culturas influenciaram a mentalidade presente nos textos: Cultura semítica e cultura helênica.

10. História

Para que se compreender os escritos bíblicos é necessário ter uma noção da história de Israel e do Império Romano. Em síntese, esta é a linha de tempo da Bíblia:



Antes de Cristo (AT)
1926: Abraão migra para Arã.
1800-1200: Tradição oral.
1200: Período tribal – o povo se instala em Canaã.
Primeiros fragmentos escritos (Código da Aliança)
1150-1050: tempo dos juízes.
1000: Primeiros escritos.
1040-922: Fase de ouro – os reis Saul, Davi e Salomão.
922-605: Reino de Judá – sul.
922-720: Reino de Israel – norte.
597-538: Exílio na Babilônia.
515: Reconstrução do templo.
333-135: Dominações dos selêucidas e lágidas.
167: Revolta dos Macabeus.
64: Os romanos dominam a Palestina.

Depois de Cristo (NT)
6-29: Vida e ministério de Jesus.
30: Primeiras comunidades.
70: Destruição de Jerusalém e diáspora.
90: Expansão do cristianismo.
135: Destruição de Jerusalém e diáspora final.


11. Cultura

As duas culturas que influenciam a redação dos livros bíblicos são bem diferentes. Os gregos são dados ao comércio, à educação, pensam o mundo racionalmente. Esses acreditam em vários deuses, seu sistema político é a democracia, vê o homem constituído de corpo e alma, existem o mundo material e o mundo espiritual, imortalidade da alma, céu e inferno. A expressão máxima dessa cultura é a filosofia. Sua língua foi o grego. Os homens mais importantes Homero, Sócrates, Platão, Aristóteles e Alexandre Magno.
Os judeus acreditavam em um só Deus, davam mais importância à religião, o sistema político é a teocracia, o homem é corpo, existe apenas o mundo material, não se pronunciam sobre imortalidade, acreditam apenas na morada dos mortos. A expressão máxima dessa cultura é o monoteísmo. Suas línguas foram o hebraico e o aramaico. Os homens mais importantes Abraão, Moisés, Davi, Salomão, Jesus e Paulo.

12. Judaísmo

O antigo testamento pertence ao judaísmo assim como o novo surge num cenário também judaico. Por isso, vamos entender um pouco sobre judaísmo. Esta religião surgiu da tradição de Moisés, crê em um só deus chamado YHWH, possui um pacto com essa divindade, crê que a Torá foi dada por ele. Os judeus guardam o sábado, não possuem sacerdotes atualmente, os rabinos são os dirigentes do culto, a sinagoga é o seu templo. O Antigo Testamento é a sua bíblia, chamada de Tanakh. Mas contém os protocanônicos.
O pacto divino foi estabelecido com Abraão. Os fundamentos da fé estão na lei dada por Moisés. O judaísmo surgiu somente a partir do exílio. Além da Tanakh, os judeus possuem comentários bíblicos com o Talmud e a Mishná.
O corpo doutrinário do judaísmo não possui as noções de céu, inferno, corpo, alma e nem vida após a morte. Os adeptos esperam um messias e um mundo futuro de paz que acontecerá neste mundo mesmo.

13. Estrutura da literatura bíblica

Para efeito de estudo, o AT é subdividido em: Pentateuco (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio), História deuteronomista (Josué, Juízes, 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis), Obra do cronista (Crônicas, Esdras e Neemias), Literatura profética (Isaías, Jeremias, Ezequiel etc), Literatura sapiencial (Jó, Provérbios), Poéticos (Salmos).
No NT, temos: Sinóticos, Mateus, Marcos, Literatura Lucana (Lucas e Atos), Literatura Paulina (cartas de Paulo), Cartas católicas (Tiago, Pedro, Judas), Literatura Apocalíptica (Apocalipse de João) e Literatura Joanina (Evangelho de João, cartas de João).












PRINCÍPIOS PARA A INTERPRETAÇÃO DOS TEXTOS BÍBLICOS

A hermenêutica é o estudo sobre os princípios e o método de interpretar textos. O texto permite várias interpretações, mas ele estabelece por si um limite entre aquilo que se pode dizer dele e aquilo que não se pode dizer. Quanto mais o leitor se dispuser de instrumentos adequados, melhor será sua compreensão do texto.
Enquanto a ciência geral da interpretação é a hermenêutica, a exegese é o exame do texto bíblico. Há várias maneiras de examinar o texto. O leitor pode realizar uma leitura devocional com o objetivo de ouvir o que Deus tem a lhe falar ou pode realizar uma leitura acadêmica procurando aprofundar-se no sentido literal, social ou histórico do texto.[3]
Alguns critérios para serem adotados na leitura do texto:
1.    Contexto: Leia o texto completo até onde pode ser delimitado um trecho com sentido único (perícope); não reduza suas leituras a versículos isolados;
2.    Tempo: Procure localizar a época em que se pode localizar aquele texto, mesmo que seja de modo aproximado;
3.    Lugar: Do local, procure identificar de onde o autor está falando, considera sua inserção social em determinado contexto.
4.    Texto: Identificar as marcas linguísticas no texto que permitem a compreensão do sentido (nomes, lugares, expressões, verbos) e dentro de qual gênero literário se classifica o texto;
5.    Segmentação: Divida o trecho escolhido em quantas ideias ou conjunto de ideias forem possíveis.

1.    Exercício com o salmo 1:

1. Feliz o homem que não procede conforme o conselho dos ímpios, não trilha o caminho dos pecadores, nem se assenta entre os escarnecedores.
2. Feliz aquele que se compraz no serviço do Senhor e medita sua lei dia e noite. 3. Ele é como a árvore plantada na margem das águas correntes: dá fruto na época própria, sua folhagem não murchará jamais. Tudo o que empreende, prospera.
4. Os ímpios não são assim! Mas são como a palha que o vento leva.
 5. Por isso não suportarão o juízo, nem permanecerão os pecadores na assembleia dos justos.
6. Porque o Senhor vela pelo caminho dos justos, ao passo que o dos ímpios leva à perdição.

Perguntas necessárias ao texto:

a)      De quem o texto fala? Dos justos e dos ímpios.
b)      Qual é o tempo do texto? O tempo presente (“não procede, não trilha, se compraz”); no versículo 5, há uma predição do futuro (“não suportarão”).
c)      Como podemos segmentar o texto?
i.     Do versículo 1 ao 3: O autor descreve e elogia o justo porque  não seguem e nem procedem como os ímpios, os pecadores e os escarnecedores.
ii.   No versículo 4: O assunto agora é o ímpio. Há uma comparação (“Os ímpios não são assim!”). Os ímpios “são como a palha que o vento leva”.
iii. Versículo 5: Há um marcador que introduz o destino dos ímpios (“não suportarão o juízo” / “nem permanecerão ... na assembléia dos justos”).
iv. Versículo 6: A conclusão mostra qual é a situação dos justos e dos ímpios diante do Senhor (vela pelos justos / o caminho dos ímpios é o da perdição”).
d)     Qual é a idéia principal do texto? Há os justos e os ímpios. Os justos têm sua conduta aprovada por Deus, mas os ímpios andam no caminho da perdição.

Acesso aos eslaides: Clique aqui.

[1]Texto para o Estudo Teológico em São Barnabé, a 30 de março de 2019.
[2] FRANCISCO, Clyde T. Introducción al Antiguo Testamento. Casa Bautista de Publicaciones, Casa Bautista de Publicaciones, 1978, p. 20.
[3] ZABATIERO, p. 9.

domingo, 3 de fevereiro de 2019

1º encontro do Estudo de Teologia de São Barnabé


INTRODUÇÃO AO CRISTIANISMO:
EM QUE CRIAM OS PRIMEIROS CRISTÃOS?[1]

José Aristides da Silva Gamito[2]

Início do Curso de Teologia em São Barnabé (Conceição de Ipanema, MG) a 02/02/2019.

1.    Introdução

O movimento do cristianismo teve início logo depois da morte de Jesus. Os apóstolos animados pelas últimas palavras de Jesus (Mt 28,19), partiram de Jerusalém e seguiram as rotas do Império Romano para divulgar a nova fé. Mas, bem lá no começo os cristãos formavam apenas uma seita dentro do judaísmo. A diferença entre os judeus ortodoxos e os cristãos era a aceitação de Jesus como o Messias. O culto cristão acontecia dentro das sinagogas. O judaísmo do século I d. C. estava dividido em várias partidos/seitas como os fariseus, saduceus, zelotas e essênios. Inicialmente, o cristianismo era apenas mais um grupo. A ruptura entre cristianismo e judaísmo acontecerá de modo mais definitivo após a destruição do Templo de Jerusalém no ano 70.
Quando o cristianismo sai do ambiente da Palestina, inicia-se uma missão de conquistar as cidades mais influentes do mundo romano. O cristianismo deixa de ser um movimento camponês para ser um movimento religioso urbano. Ao longo deste processo de conquistas de novos adeptos, a fé cristã entrou em contato com as centenas de religiões que eram seguidas no Império Romano. Um dos maiores desafios das primeiras lideranças cristãs foi manter uma crença original e fiel à tradição dos apóstolos.
Nos primeiros séculos, os cristãos se encontraram divididos entre gnósticos, marcionitas, valentinianos e maniqueus. Isso somente para citar alguns nomes. Alguns escritores dos séculos I e II que denunciaram as heresias enumeram diversos grupos. Epifânio de Salamina, um escritor do século IV, cita 46 grupos na sua obra Panarion. Na verdade, existiam igrejas diversas e não uma única igreja. Porém, havia um esforço pela unidade em torno do conceito de tradição apostólica. Como a diversidade cultural era grande e as distâncias geográficas eram igualmente enormes, manter uma fé uniforme mostrava-se bastante desafiador. Apareceram, então, as heresias. São elas crenças cristãs que se diferiam da tradição apostólica.

2.    A tradição dos apóstolos

Quando as igrejas apostólicas se viram desafiadas pela grande variedade de ensinamentos que divergiam da tradição apostólica, começaram a formular os credos. Os credos, símbolos ou profissões de fé são provas da crença dos cristãos antigos. Eles já são, no entanto, resultado de uma evolução da fé daqueles primeiros cristãos da época dos apóstolos. A fórmula básica de profissão de fé do começo da pregação apostólica era: “Jesus é o Senhor” (Fl 2,11).  Afirmar que Jesus é o Senhor significava alterar profundamente o credo judaico fundamentado em Deuteronômio 6,4 (“Escuta, Israel, o Senhor nosso Deus, o Senhor é um só”).
A afirmação de que Jesus é o Senhor é o divisor de credo entre cristãos e judeus. Isso significa postular que Jesus é igual a Deus. A crença na unicidade de Deus (monoteísmo absoluto) não permitia ao judeu crer na fé trinitária que desenvolveu mais tarde no cristianismo. Os credos se desenvolveram todos como um desdobramento da fé na trindade.
A Carta dos Apóstolos, um texto escrito por volta de 160-170, apresenta o conteúdo da fé cristã nestes termos:


no Pai dominador do Universo,
e em Jesus Cristo, [nosso Salvador],
e no Santo Espírito [Paráclito],
e na Santa Igreja,
e na remissão dos pecados.[3]












In Patrem dominatorem universi,
Et in Iesum Christum [salvatorem nostrum],
Et in Sanctum Spiritum [Paraclitum],
Et in sanctam Ecclesiam,
Et in remissionem peccatorum.

Este antigo credo se divide em cinco artigos: 1º - a fé em Deus que domina o Universo; 2º - em Jesus Cristo como Salvador; 3º - na Igreja; 4º - no perdão dos pecados.
     A mais famosa profissão de fé é o Símbolo dos Apóstolos. Seu conteúdo é aceito pela maioria das igrejas cristãs. Segundo uma lenda, o texto teria sido composto pelos doze apóstolos. De acordo com Ian Mcfarland, a versão atual difundida do Credo Apostólico teve origem no sudoeste da França nos fins do século VI ou início do século VII. Ele é uma versão modificada do Credo Romano Antigo que data do começo do século III e serviu de base para os demais credos.
     O uso do Credo Apostólico foi difundido durante o período de Carlos Magno para uniformizar a liturgia.

3.    A Trindade


     O primeiro artigo dos credos é a profissão de fé em Deus Pai. O núcleo da fé cristã é a crença de que Deus é uno e trino. O tratamento de Deus enquanto Pai, Filho e Espírito Santo aparece no Novo Testamento. Isto corresponde ao período de 50 até 100 depois de Cristo. Os primeiros já expressavam através destas palavras, mas a explicação e o desenvolvimento de termos próprios para tratar desta doutrina surgiram somente mais tarde.
     A ocorrência mais antiga deste termo Trindade (em grego, Trías) aparece na obra “Autólico” de Teófilo de Antioquia por volta de 170 d. C. [4] O escritor Tertuliano utiliza a palavra Trindade dizendo que: “Como se estivesse desta forma também não foi tudo, em que todos, pela unidade (isto é) de substância; enquanto o mistério da dispensação ainda está guardado, que distribui a Unidade em uma Trindade, colocando em sua ordem, as três Pessoas - o Pai, o Filho e o Espírito Santo”.[5]
     No Novo Testamento, há muitas menções dos três nomes divinos: Pai, Filho e Espírito Santo. Jesus é compreendido como o filho de Deus no episódio do batismo (Mt 3, 16-17).  O evangelista João retrata as palavras de Jesus ao falar da promessa do envio do Espírito Santo como pessoas distintas: “Mas, quando vier o Consolador, que eu da parte do Pai vos hei de enviar, aquele Espírito de verdade, que procede do Pai, ele testificará de mim.” (Jo 15, 26). Neste texto, o Pai, o Filho e o Espírito Consolador têm atividades diferentes.
     Portanto, os textos do Novo Testamento expressam a identidade divina através dos nomes do Pai, do Filho e do Espírito. Porém, a doutrina da Trindade foi desenvolvida somente a partir do século II.  Mas até início do século IV as formulações dos credos eram apenas locais.[6] A síntese da fé cristã se desenvolveu a partir das práticas litúrgicas. Os rituais de batismo continham um questionamento do candidato sobre a fé que estava processando. Geralmente, iniciavam com três perguntas ao candidato ao batismo: “Crês em Deus Pai? Crês em Jesus Cristo? Crês no Espírito Santo?” A preparação catequética dos cristãos antigos consistia no conhecimento de um formulário semelhante aos credos. Mas as fórmulas apareciam também na eucaristia e no rito de exorcismo.
     A partir dos concílios, houve um esforço para superar as divergências doutrinárias entre as igrejas antigas. O concílio de Niceia formulou um credo com o propósito de ser válido para toda a Igreja.[7] A definição sobre a doutrina fundamental do cristianismo aconteceu de modo coletivo a partir do concílio de Niceia (325 d. C.) e de Constantinopla (381 d. C). As declarações destes concílios foram sintetizadas no chamado Credo niceno-constantinopolitano.
     A compreensão da identidade e da natureza do Pai e do Espírito Santo não foi objeto de tanta discussão, mas a pessoa de Jesus Cristo foi alvo de muita disputa.  A negação da divindade do Espírito Santo. Um grupo chamado de pneumatômacos negava esta condição. Surgiram várias explicações e doutrinas para explicar como Jesus era homem e deus ao mesmo tempo. Estas são as chamadas controvérsias cristológicas. Os credos de Niceia e de Constantinopla foram elaborados para porem fim aos debates que dividiam os cristãos.
     Compreender como Jesus era homem e deus era desafio para muitos cristãos. Segundo Apolinário de Laodiceia (310-390), Jesus teria um corpo humano, mas sua mente seria divina. Ário (256-336) negava que Jesus fosse divino, considerava-o somente uma criatura humana. O primeiro Concílio de Constantinopla condenou estas doutrinas afirmando que Jesus era completamente deus e completamente homem.  Este concílio, em seu credo, define Jesus como “consubstancial ao Pai”. Esta expressão significa que Jesus e Deus possuem a mesma substância ou essência.
     A relação entre o Pai, o Filho e o Espírito é o compartilhamento da mesma substância. Deus pai é o criador de todas as coisas. O Filho foi gerado pelo Pai. Já o Espírito Santo procede do Pai. Essas conclusões levaram muitos anos de debate para serem formuladas.

4.    A Igreja

     Outra crença proclamada pelo Credo é na Igreja.  A profissão nos termos: “Creio... na Santa Igreja Católica” reafirmava a comunhão de todos os cristãos em torno de uma mesma fé. Porém, quando se falava na “Igreja Católica” não estava se referindo de modo restritivo à Igreja Católica Romana. Nos primeiros séculos do cristianismo, havia não havia distinção.
     Na versão de Hipólito de Roma, há a inclusão da palavra “apostólica” juntamente com a palavra “católica”. Esta necessidade é para reafirmar que a fé verdadeira reivindicada pelos cristãos tinha como fundamento as tradições ensinadas pelos apóstolos. Os credos tinham esta função também de combater grupos que tinham uma fé heterodoxa. Outro adjetivo que também aparece é “una”.
     É comum em todo estudo sobre a Igreja apresentar as quatro qualidades distintivas dela: Unidade, santidade, catolicidade e apostolicidade. Estes adjetivos foram incorporados no Símbolo de Constantinopla em 381 e são reflexões originais de São Cirilo de Jerusalém. A liturgia conservou costume de professar a fé durante as missas, no texto a assembleia repete que acredita na Igreja Uma, Santa, Católica e Apostólica.
     Igreja Uma: A Igreja se define pela unidade dos fiéis em torno de Cristo professando uma só fé, um só batismo, um só Deus, uma só esperança em um só corpo e um só espírito (Ef 4, 4-5). A unidade é a qualidade fundamental da Igreja porque o grande desejo de Jesus foi a comunhão de todos os seus seguidores: “Pai santo, guarda-os em teu nome que me deste, para que sejam um como nós” (Jo 17, 11). A unidade da Trindade é o modelo de comunhão desejado para a Igreja. Quando se fala desta unidade/comunhão não se deve confundir com uniformidade. A Igreja sempre conteve em si a diversidade. Ela é comunhão de Igrejas. Cipriano de Cartago na obra De Unitate Ecclesiae (A Unidade da Igreja) usa a imagem da luz para descrever a unidade da Igreja, muitos são os raios, mas uma só é a luz.
     Igreja Santa: A Igreja é constituída de pecadores. A santidade é porque todos participam da graça de Jesus, são chamados à santidade e conservam em si o auxílio necessário para ser santo. É um conceito teológico. Isso não significa que não haja pecados individuais e reais na Igreja.
     Igreja Católica: A Igreja nasceu aberta a todos os povos. Diferentemente do judaísmo que era uma religião nacional, o cristianismo surge como uma proposta universal. A palavra católico quer dizer “universal, para todos”.
      Igreja Apostólica: A apostolicidade revela a natureza da Igreja. Ela nasce sob a autoridade do testemunho dos apóstolos que aprenderam diretamente de Jesus o Evangelho e são autoridades morais e históricas para fundar, expandir e conduzir a Igreja. Não é possível fala de Igreja autêntica sem levar em conta sua origem apostólica.

6.    A Salvação

     A respeito da salvação e do destino do homem, os credos geralmente terminando com afirmações sobre o julgamento final. Será um julgamento no final dos tempos dos vivos e dos mortos. Proclama-se a fé também na ressurreição dos mortos e a vida eterna, nos termos do credo niceno-constantinopolitano: “Esperamos a ressurreição dos mortos; e a vida do mundo vindouro.”

Referências:

KELLY, J. N. D. Early Christian Creeds. London; New York: Continuum, 2008.
ANTIOCH, Theophilus of. Ad Autolycum. In: SCHAFF, Philip. Fathers of Second Century.
TERTULLIANUS. Adversus Praxeam. In: SCHAFF, Philip. Latin Christianity: Its Founder, Tertulian.



[1] Texto a ser apresentado no estudo teológico na comunidade São Barnabé (Conceição de Ipanema/MG) no dia 02/02/2019.
[2] E-mail: joaristides@gmail.com.
[3] DENZINGER, p. 53.
[4] A palavra Trindade é utilizada pela primeira vez por volta de 170 ou 180 depois de Cristo: “Os três dias que precederam aos corpos luminosos são a imagem da Trindade, quer dizer, de Deus, de seu Verbo e de sua Sabedoria.” (ANTIOCH, Theophilus of. Ad Autolycum. In: SCHAFF, Philip. Fathers of Second Century. P. 157).
[5] TERTULLIANUS. Adversus Praxeam. In: SCHAFF, Philip. Latin Christianity: Its Founder, Tertulian. P. 1044.
[6] KELLY, J. N. D. Early Christian Creeds. London; New York: Continuum, 2008, p. 205.
[7] KELLY, 2008, p. 205.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

CURSO DE TEOLOGIA EM SÃO BARNABÉ, CONCEIÇÃO DE IPANEMA (MG):


Iniciação ao estudo da fé cristã

Estamos programando um curso básico de teologia na comunidade São Barnabé, na paróquia Nossa Senhora da Conceição de Ipanema, em 2019. A pedido de Ailton Caetano, o professor José Aristides da Silva Gamito coordenará alguns estudos de teologia com a comunidade local. Como nos demais projetos, disponibilizaremos os materiais neste blog para quem queira aprofundar seus estudos. Aguardem!