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segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Literatura e teologia paulina


UMA INTRODUÇÃO ÀS EPÍSTOLAS PAULINAS

Paulo de Tarso.
1.    Introdução

Os escritos atribuídos a Paulo ocupam a maior parte do Novo Testamento.Embora, não tenha convivido com Jesus, acabou se tornando muito influente. Pedro, Tiago e João confiaram a Paulo a evangelização dos povos de língua grega, os gentios (Gl2, 7-10). Depois ele empreendeu suas viagens missionárias. É dentro deste contexto de relação com as igrejas que fundou ou que passou a conhecer que surgem as epístolas.
As epístolas foram escritas dentro de um período de 50 a 64. Com a informação da Epístola aos Gálatas, sabemos que Paulo trabalhou pelo menos 14 anos na evangelização (Gl 2,1). Mas seu ministério durou mais do que isso.13 epístolas foram atribuídas ao apóstolo Paulo. Embora, nem todas foram escritas diretamente por ele. São elas Romanos, 1ª e 2ª Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses,1ª e 2ª Tessalonicenses (eclesiásticas), 1º e 2º Timóteo, Tito (pastorais) e Filêmon (pessoal). Algumas epístolas foram perdidas, dá-se conta de quatro.
Porém, apenas as seguintes epístolas são consideradas autênticas: 1ª Tessalonicenses (escrita por volta de 50 depois de Cristo), Gálatas (53), 1ª Coríntios (53 a 54), Filipenses (55), Filêmon (55), 2ª Coríntios (55 a 56)) e Romanos (57). Há dúvidas se Colossenses e 2ª Tessalonicenses foram mesmo escritas por Paulo. Neste estudo consideraremos a teologia de Paulo apenas a partir deste corpus mais reduzido.

2.    Teologia paulina

Cristologia de Paulo. A cristologia diz respeito ao modo como se compreende Cristo do ponto de vista da fé. Paulo chama Jesus de Senhor (Fl 2, 11). E o considera pré-existente, partícipe da obra da criação (1 Cor 8, 6). Jesus é subordinado a Deus pai (1 Cor 15, 20). O reino de Cristo tem uma função temporária até o fim dos tempos (1 Cor 15, 24). Cristo tinha condição divina, mas ao encarnar, esvaziou-se (kénosis) de sua condição e se assumiu como homem (Fl2, 6-11).[1]Jesus é o filho de Deus a quem ele ressuscitou dos mortos (1 Ts 1, 9-10).
A salvação pela fé.Paulo elabora uma doutrina foi muito influente no cristianismo. Trata-se da doutrina da justificação. A salvação vem pela fé (Rm1, 16-17). Quando a vida de Jesus a graça foi derramada sobre todos e justificou a todo. A obediência de um só homem trouxe vida e justificação para todos os homens (Rm5, 12-20). A graça torna o homem livre do domínio da Lei: “estamos livres da Lei” (Rm 7, 6). Cristo colocou o homem em outro patamar, ele não está mais sujeito ao pecado e à morte (Rm8, 1-2). Esta nova condição o leva a ser considerado filho adotivo de Deus (Rm8, 14-16).A Lei teve uma função preparatória para a vinda de Cristo. A fé em Cristo trouxe a plena liberdade. Não há mais distinção entre judeu e grego (Gl3, 23-29). No fim, a Lei se resume ao amor: “Não devais nada a ninguém, a não ser o amor mútuo, pois quem ama o outro cumpriu a Lei” (Rm 13, 8).
Sacrifício vicário de Cristo. Paulo entende a morte de Cristo como um instrumento de realização da vontade de Deus. Ele ensina que Cristo morreu pelos pecados dos homens. A morte de Cristo realizou uma reconciliação entre Deus e os homens (Rm 5, 10).  A vinda de Cristo remiu todos aqueles que estavam sob o jugo da Lei e mudou a condição de todos com a adoção filial (Gl4, 1-11).
A ressurreição de Cristo e dos homens. Paulo levanta alguns testemunhos m favor da ressurreição de Jesus. A maior esperança que o cristianismo anuncia é a imortalidade. Ele diz que depois de morto, Jesus apareceu aos apóstolos e a mais de 500 pessoas (1 Cor 15, 3-8). A ressurreição de Cristo é tomada como prova da ressurreição de todos os homens (1 Cor 15, 20-22). Cristo é o protótipo da vida e Adão, o protótipo da morte. O apóstolo esboça uma antropologia do homem ressuscitado. As suas características são um corpo incorruptível, glorioso, forte e espiritual (1 Cor 15, 42-43).
A diversidade de dons. Paulo considera que a comunidade forma um conjunto do qual todos os membros têm seu valor e sua função. Algumas comunidades primitivas valorizam muito as manifestações do subconsciente como o êxtase profético e a fala inconsciente de línguas. Tais práticas eram incorporadas ao culto. A comunidade de Corinto tinha esses costumes. O contexto da 1ª Epístola aos Coríntios indica que o dom de línguas era muito valorizado naquela comunidade. Então, Paulo esclarece que desejar os dons do Espírito é louvável, porém, tudo deve acontecer da caridade (1 Cor 14,1). Ele critica o uso ostensivo do dom de línguas e diz que o dom da profecia é mais elevado. E que a língua sem interpretação não edifica ninguém (1 Cor 14, 2-25).
Parusia. Os mortos ressuscitarão assim como Jesus. Na vinda de Jesus, os mortos precederão aqueles que estiverem vivos. Estes vivos serão arrebatados ao céu. Esta é a esperança que Paulo transmite aos tessalonicenses (1Ts 4, 13-18). Em seguida, ele diz que ninguém saberá a data da vinda de Jesus por isso ele insiste na vigilância constante (1Ts 5, 1-11).

3.    Moral paulina

A moral paulina tem como critério a liberdade. O fato de ele ter abandonado a preferência da lei em favor da graça, ele gerou uma moral segundo a liberdade na responsabilidade. Porém, sua moral não consiste num sistema fechado, há muitas proibições também.
A máxima paulina impactante é a seguinte: “Tudo me é permitido, mas nem tudo convém. Tudo me é permitido, mas não me deixarei escravizar por coisa alguma” (1 Cor 6, 12). O homem tem a liberdade de usufruir de todos os bens da criação, mas é conveniente evitar aquelas coisas que podem escravizá-lo.
Algumas listas de vícios aparecem. Em 1 Cor, 9-10, Paulo condena o comportamento dos idólatras, adúlteros, depravados, efeminados, sodomitas, ladrões, avarentos e dos bêbados. Ele sujeita esses comportamentos à herança do Reino de Deus.
Há muitas recomendações a respeito de relações sexuais. Ele condena a relação com prostitutas (1 Cor 6, 15-16). Paulo imagina a virgindade como um estado ideal (1 Cor 7,7-8), tece-lhe diversos elogios (1 Cor 7, 36-37), porém, recomenda o casamento para que as pessoas não vivessem na fornicação (1 Cor 7,2).Parece que Paulo considerava a vida de casado difícil (1 Cor 7, 27-28). A normatização de Paulo para a comunidade paulina não condena a separação de casais. O que ela não recomenda é a segunda união (1 Cor 7,10).

4. Normas cultuais

Como norma religiosa, há recomendações específicas para os cristãos gentios e diz respeito ao costume da época. Paulo os desobriga da circuncisão (1 Cor 7, 17-19) e proíbe o consumo das carnes que eram utilizadas nos sacrifícios pagãos (1 Cor 8, 7-13). Paulo compreende que os alimentos não afastam e nem aproximam ninguém de Deus, mas que comer carnes de rituais pagãos poderia levar um cristão a enfraquecer sua fé e voltar aos antigos costumes.
Este tema das carnes imoladas aos ídolos faz transparece a posição de Paulo em relação aos alimentos. Ele afirma: “Não são os alimentos que nos aproximam de Deus, se deixamos de comer, nada perdemos; e, se comemos, nada lucramos” (1 Cor 8, 8). Em outra passagem, ele diz claramente que se pode comer de tudo que se vende no mercado (1 Cor 10, 25-26). O cristianismo das comunidades paulinas não tinha uma dieta de motivação religiosa. Isto significa que até as proibições alimentares do Antigo Testamento não foram acolhidas por eles.  Na antiguidade, havia grupos que se preocupavam com isso. Os cristãos encratistas tinham restrições alimentares. Eram vegetarianos.
Dentre as normas cultuais, há também a argumentação de Paulo em favor de um salário para aqueles que se dedicam ao evangelho. Quando discorre sobre isso, o apóstolo informa que não aplica este procedimento a si, ele pregava gratuitamente (1 Cor 9, 8-14).No capítulo 11, Paulo critica a pressa de alguns em comerem a ceia antes dos outros (1 Cor 20-21).
O debate sobre o dom de línguas leva Paulo a nos informar como eram as assembléias. Havia cânticos, ensinamentos, revelação. Os profetas tomavam a palavra. E só deveria falar em línguas se tivesse o intérprete (1 Cor 14, 26-33).Quanto às mulheres nas assembléias, a recomendação é de que usem o véu (11, 2-16) e não façam uso da palavra (1 Cor 14, 34).

Referências

EAGLEN, Jason. The presence of “high” christology in the letters of Paul the apostle. Master´s thesis.University of Georgia, 2006.

RAMOS, José Augusto, PIMENTEL, Maria Cristina de Sousa, FIALHO, Maria do Céu; RODRIGUES, Nuno Simões (coords.).Paulo de Tarso:Grego e Romano, Judeu e Cristão. Coimbra: FCT, 2002.



[1] EAGLEN, Jason. The presence of “high” christology in the letters of Paul the apostle. Master´s thesis. University of Georgia, 2006, p. 2-3.

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